O ódio ao banal

Foto: Split Shire

Desde os tempos do Orkut o ódio tem sido o sentimento mais reverberado pelas redes sociais. Uma comunidade inteira era dedicada para descascar quem quer que fosse, o estilo musical que fosse, os admiradores do refrigerante de uva estranho que fosse. Iniciados os anos 2000, o mundo não acabou, o bug do milênio não aconteceu, mas tempos sombrios estavam por vir.

Tem aquela pessoa famosa. Ela não maltrata animais, não bateu na mãe, não dissemina ideias prejudiciais ao coletivo, porém o jeito de ela falar é entusiasmado demais e, por isso, você a odeia. Dá risadas muito altas, teve namorados demais: merece ser torturada! É velha e gosta de ser jovial: deveria MORRER queimada! Você não se contenta a falar mal na sua roda de amigos; você tem que agredir, você tem que ferir publicamente na Internet e se juntar com todas aquelas pessoas “cidadãs de bem” que não podem conter tamanha indignação. Onde já se viu fazer todas essas coisas e sair imune? Mata que é barata!

Você é a madrasta da Cinderela, que não suporta gente boa-zinha (há-há-há). Você é a prima má de Maria da Graça, tripudiando da prima que veio do interior para seguir o seu sonho de ser cantora. Você é Scar, que morre de inveja do brilho e da posição social do irmão. Comoveu-se com todos esses filmes e não aprendeu que é feio fazer todas essas coisas.

Como explicar um ódio assim, minha gente? Não precisa se esforçar muito para perceber que os alvos mais comuns são mulheres. A mulher perfeita parece ser magra, jovem e recatada. Elimine uma dessas características e verá porque aquela figura famosa que nunca fez mal a ninguém sofre com tanta agressão. Se ela tiver todas as características desejáveis deve ser uma vadia enrustida ou careta demais. Os homens, fora os ídolos teens e os que têm alguma inclinação homossexual, geralmente são verdadeiramente escrotos para passarem a ser odiados, como Bolsonaro e Dado Dolabella. Porém, ainda assim não estão totalmente imunes, o ódio chegou para dominar, e qualquer bobagem pode ser suficiente para ser alvo de agressões.

E isso não se resume mais a pessoas famosas do mundo artístico. Aquela pessoa que faz comentários políticos excelentes, um dia fala algo que você não concordou. Você a partir de então passa a odiá-la. Você já deveria saber que tudo não passava de uma farsa. Vocês agora não concordam em tudo. Não dá para acompanhar mais o que essa pessoa diz. Ela não leu a mesma cartilha que você.

E a parada vai se ampliando. Aquela pessoa conhecida supersimpática e prestativa que por acaso lhe adicionou no Facebook: analisando bem, ela parece ser uma abobalhada, posta muitas fotos de animais. Block nela!

Claro que não vamos ser tolerantes com pessoas que disseminam ideias fascistas. Estou falando desse ódio por coisas banais ou simples divergências de opinião que não estão fundamentadas em ideias maquiavélicas de supressão de determinadas categorias de pessoas.

Tenhamos em mente que as redes sociais, na maioria dos casos, mostram apenas fragmentos de personalidade. Alguns aspectos podem dizer muito, outros não significam tanta coisa assim, podendo inclusive ser manipulados (ser culto, politizado, por exemplo). No entanto, é inevitável o desejo de julgar e classificar. Há quem descomplexifique tanto as pessoas que só consegue amá-las ou odiá-las, como se fossem apenas personagens de algum filme de vilão e mocinho. As pessoas reais viram personagens e você vira o telespectador que só vive dando opinião de como os outros deveriam ser e/ou agir. Gosto; não gosto. Incluo; excluo. É tudo o que você pode dizer/fazer. E você se transforma num personagem odiento, como um vilão de contos de fada ou de algum filme infanto-juvenil. Só que você não é vilão, tampouco é mocinho. Provavelmente seu alvo de ódio também não se enquadra nesses perfis.

Ele é como aquele seu tio que tem opiniões políticas ridículas, mas sabe fazer poesias delicadíssimas. É como a amiga que paquerou com seu ex-namorado, mas ia visitá-la todo dia no hospital. É como seu pai, que é conservador em alguns aspectos, mas que deixa você ser feliz do jeito que é. É o marido excessivamente fanfarrão que cuida da esposa com câncer até o fim da vida. Não dá para odiá-los tanto assim, porque eles não são feitos de fragmentos. E a maioria das pessoas são assim, vá procurar coerência que você se atrapalha toda. Melhor não despender tanta energia negativa no que no fundo pode ser apenas humano.

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mariana-nobrega

Mariana é doutoranda em ciências criminais e mestra em ciências jurídicas. Pesquisa sobre direitos humanos, teorias feministas e criminologia. Também é servidora pública e mais uma advogada de araque neste país de direitoloides.

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