O limbo dos homens que não fazem nada

Foto: Viktor Hanacek
Foto: Viktor Hanacek

Umas das principais metas do feminismo foi revolucionar o espaço privado e introduzir as mulheres no espaço público. Consequentemente, essa tentativa de transformação dos espaços (ainda em curso) trouxe enormes repercussões na vida dos homens, que passaram a repensar seus papeis que antes pareciam pré-definidos. Dentre as novas exigências estão questões como o compartilhamento das tarefas domésticas e a abertura para a entrada das mulheres no espaço público, especialmente no mercado de trabalho e nas decisões políticas.

Atualmente, muitos homens têm passado a introduzir esses valores igualitários em suas vidas, ao mesmo tempo que ainda permanecem os brucutus que não aceitam abdicar de seus privilégios e recusam às mulheres a participação em atividades que signifiquem alguma maneira de exercício de poder.

No meio dessa luta de homens bacanas e brucutus, no entanto, existe um limbo. São aqueles caras que de alguma forma abdicaram das responsabilidades e dos privilégios do mundo público, todavia não assumiram nenhuma função no mundo privado ou doméstico. O principal objetivo almejado é ser um grande profissional de Playstation, um campeão invejável de Fifa.

É aquele rapaz aparentemente libertário, simples, desapegado dos bens materiais. Ele apoia seus estudos, apoia sua carreira e não se importa com o fato de você ter o salário mais alto. Depois do encantamento inicial, você começa a perceber que ele é uma pessoa incapaz de tomar decisões ou assumir responsabilidades. Qualquer problema chama o papai ou a mamãe para resolver. Enquanto todo mundo da casa está na cozinha, preparando o almoço de domingo, ele está na sala, numa nova partida incrível de algum jogo que não pode pausar.

Aí você decide se casar com ele, apesar desse aparente pequeno desvio. E a dinâmica não muda muito. Você vira a própria mamis dele. Depois de um dia cansativo fora de casa, você chega, ele já está por lá. Nesse tempo livre, ele não teve nenhuma ideia de levar para consertar o computador quebrado ou fazer o jantar. Claro que você vai chegar do trabalho cansada e vai fazer tudo o que precisa para manter a casa funcionando.

É assim, enquanto as meninas desde pequenas são ensinadas a fazer a própria comida, a cuidar das próprias coisas e organizá-las dentro de casa, os rapazes ainda em grande parte não são estimulados da mesma maneira. Aqueles homens que antigamente sabiam consertar o chuveiro ou o telefone também quase não existem mais. Em contrapartida, enquanto a eles se passa a permitir a liberação das responsabilidades econômicas, como deveria acontecer, não há qualquer mudança de mentalidade em relação ao mundo doméstico, o que tem engendrado uma verdadeira geração de sanguessugas.

Logicamente que existem mulheres nesse limbo também. Consideram-se avançadas porque não sabem cozinhar, mas também não assumem responsabilidades com o próprio provimento. Como os homens citados, também são pessoas que irão depender do parceiro ou continuarão por tempo indeterminado na cola do papai e da mamãe. Pego no pé especialmente dos homens, porque o tempo dedicado ao trabalho doméstico pelas mulheres ainda é absurdamente maior – é em média 150% maior que o tempo dedicado pelos companheiros, conforme pesquisa do IPEA de 2011 (Retrato das desigualdades de gênero e raça). Enquanto isso, elas já são largamente maioria nas universidades, cerca de 60% (IBGE), e ocupam cada vez mais espaços no ambiente de trabalho. Notem que, ao passo que mudanças significativas ocorrem no espaço público, dentro de casa há uma estagnação que tende a sobrecarregar cada vez mais as mulheres.

O que vale para todo mundo: vida confortável sem contribuição dentro e fora de casa só acontece quando existe uma outra pessoa sobrecarregada que dê conta de sustentar esse conforto. A verdadeira igualdade só vai ser alcançada quando cada um permitir que o outro exerça por completo suas potencialidades. Isso significa que ninguém terá de chegar em casa e trabalhar dobrado para prover o bem-estar alheio. Então, vamos cada um lavar a loucinha, fazer um ovinho, um feijão com arroz, que a verdadeira transformação não permitirá dondoquice.

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mariana-nobrega

Mariana é doutoranda em ciências criminais e mestra em ciências jurídicas. Pesquisa sobre direitos humanos, teorias feministas e criminologia. Também é servidora pública e mais uma advogada de araque neste país de direitoloides.

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4 comentários

  1. Bem moças, ai está o resultado do feminismo de vcs, era melhor qnd vcs exigiam o trabalho do homem ao invés do das mulheres. Ainda bem n me tange esses males.

  2. Whatever… Sozinho me viro bem. Hoje em dia temos boas lavadoras/secadoras de roupa (ou mesmo lavanderias), panelas de cozimento fácil, microondas… Cozinho modestamente bem, e receitas não faltam.
    Após 12 anos de casamento, não me vejo mais nessa vida chata de casado, disputando papéis, ou se minha contribuição é suficiente ou equivalente.

    Mulheres, não desmereço seus motivos, mas agindo assim, vocês só vão garantir uma cama vazia e pior, ainda mais responsabilidades do que com o maridão “inútil” do lado.

    Deal with.

  3. Mariana, a conclusão que eu tiro do seu texto é que você tem o dedo podre pra homem e não assume a responsabilidade pelas más escolhas que fez.

    Um dos números que você jogou na sua argumentação só demonstra que, como toda feminista, você não tem domínio algum de Estatística ou Economia, tirando deles conclusões equivocadas.

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