Ciclos políticos e oportunismo

Avalio que o PT encerrou um ciclo e isso me exclui da lista dos petistas ou esquerdistas apaixonados. Penso que o PT está dando mostras de esgotamento do seu projeto político, mas o governo petista foi reeleito e isso deve ser respeitado. Dilma não tem que sair agora, não porque Cunha ou Aécio querem, mas em 2018, concluído o mandato presidencial legítimo que lhe foi soberanamente outorgado por mais de 54 milhões de cidadãos e cidadãs brasileiros(as).

Concluo que o PT finaliza um ciclo por três motivos:

a) Porque realizou sua utopia, em muitos pontos;

b) Porque não realizou sua utopia, em muitos outros pontos;

c) Porque os períodos políticos se esgotam e os atores precisam se afastar para renovar seus ideais.

No primeiro caso, os governos populares do PT realizaram o maior e mais sustentável programa de inclusão social do país – tiraram milhões de pessoas de linha de pobreza extrema e transformaram alguns milhões de pobres em classe média. Houve a inclusão econômica de 45 milhões de pessoas. Nessa trajetória, perderam sua base de apoio. Os filhos do lulismo são hoje da classe média e não se identificam mais com o lulismo. Viraram essa classe média consumista e idiota que Marilena critica. Frei Betto, em análise recente, avalia que o grande pecado foi promover a inclusão microeconômica ou individual das pessoas e não a inclusão social das comunidades, lembrando que as pessoas tiveram acesso a todos os bens e equipamentos, mas continuam morando na favela, sem que tenha havido significativa mudança na correlação de forças sociais nas cidades e nos campos.

No segundo caso, o PT errou muito e deixou de realizar suas promessas. Errou quando resolveu lidar com o jogo político como ele era, com mensalão, com corrupção, com coalizão política, sem subverter essa lógica. Errou porque perdeu a chance de mostrar que podia ser diferente. Sendo igual aos outros, perdeu seu discurso; misturando-se demais, perdeu sua identidade; agindo como os demais, comprometeu seu projeto. Afastou-se das bases populares e sindicais. Não fez a reforma agrária, não fez a reforma política. Erra agora ao adotar a política econômica do ajuste fiscal tucano.

No terceiro caso, os ciclos políticos se encerram entre erros e acertos. O PT não errou porque foi o partido mais corrupto da República. Isso nem de longe é verdade. O país não está num lodoçal por causa exclusivamente do PT, mas por causa de nossa classe política como um todo. Eu diria mais, dos aproveitadores e incompetentes que estão na classe política, na classe econômica e na burocracia, inclusive nos órgãos públicos e no poder judiciário. Estes últimos são terríveis. Essa percepção remete à nossa história, ao nosso processo colonizador, ao famoso “jeitinho”, ao “dar-se bem”. O PT não inaugurou nenhum novo crime, todos já estavam lá. A diferença é que hoje sobre o PT estão os holofotes e a grande mídia fazendo tudo parecer pior e mais errado quando for atribuído a alguém do PT. Basta ver a lista de escândalos de corrupção no país para perceber que a questão da corrupção está disseminada entre os partidos. É que os políticos são tirados do tecido social brasileiro, e tudo piora quando uma agremiação política crítica se transforma em partido de massa, com governo e poder, porque para lá migram também os fisiologistas e aproveitadores.

O PT não errou porque Lula é vaidoso e ambicioso. Isso também não é verdade. Lula é uma liderança política extraordinária, que desempenha papel importantíssimo no processo de crescimento, com inclusão, do país, e a história vai lhe fazer justiça, como hoje faz a Getúlio. Lula é um articulador. Para mim, essa virtude pode ter sido também o seu defeito. Errou ao aceitar e estimular certas composições e alianças e ao tolerar certos ‘malfeitos’.

É fato que Dilma é teimosa e autoritária, de difícil trato. Para mim, esse defeito pode ser sua virtude. Se por um lado, dificulta a tempestividade da tomada de decisões, penso que é esse perfil que a mantém no cargo, diante da turbulência que enfrenta. Mas não tenho dúvidas de que a Presidente é séria, honrada e digna. Não estou repetindo Fernando Henrique porque não preciso da avaliação oportunista de FHC para reconhecer isso.

Foto: pixabay.com
Foto: pixabay.com

O fato é que o ciclo do PT dá sinais de exaustão. No entanto, não aceito o golpe e não suporto os golpistas. O jogo da democracia representativa se repete de quatro em quatro anos. Se não há motivos fáticos nem jurídicos para impeachment, que os derrotados de 2014 botem sua viola no saco e deixem para tocar em 2018. O ruim para o país é que o projeto do PT está se esgotando, mas não surgiu ainda NADA em substituição. Por isso, não se espantem se daqui a 3 anos, eu estiver fazendo campanha para Lula, Haddad ou Pimentel …

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maria-luiza-alencar-feitosa

Pós-Doutora em Direito. Docente e diretora do Centro de Ciências Jurídicas da UFPB.

Politicário

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