O panelaço e o 16/08 representam um movimento social?

27/05/2015 - Manifestação em frente ao Congresso Nacional. Foto: Alex Ferreira / Câmara dos Deputados
27/05/2015 – Manifestação em frente ao Congresso Nacional. Foto: Alex Ferreira / Câmara dos Deputados

Há uma semana (6 de agosto), durante a propaganda política que veiculou na TV os pronunciamentos da presidente Dilma e do ex-presidente Lula, diversas cidades do Brasil registraram protestos de pessoas vaiando o governo e batendo panelas. A manifestação sucedeu uma sequência de episódios tormentosos para o PT: a prisão do ex-ministro José Dirceu, a exclusão do partido da direção de CPIs recentemente abertas no Congresso, a saída do PDT e do PTB da base governista e a aprovação na Câmara dos Deputados (em primeiro turno) de um item da chamada “pauta-bomba” – a PEC 443/2009, que aumenta a remuneração de algumas carreiras jurídicas.

O panelaço, que se fez estridente nos bairros nobres das capitais e das grandes cidades do país,  foi estimulado por páginas do Facebook  como a “Vem pra Rua”, “Revoltados On Line” e “Movimento Brasil Livre”. Essas mesmas páginas são as responsáveis pela convocação de um protesto que elas intitularam “Megamanifestação – Não vamos pagar a conta do PT!”, marcado para o dia 16 de agosto. A página do evento na rede social, até às 15h20 de hoje, contava 49 mil pessoas confirmando sua presença no protesto cujo objetivo é “exigir o fim do governo petista e repudiar seu ajuste fiscal.”

Nos posts em que conclama seus seguidores a participarem do ato, o administrador da Revoltados On Line afirma que no próximo dia 16 será proclamada “a segunda independência do Brasil” e, ao pedir contribuições financeiras (inclusive por cartão de crédito) aos potenciais manifestantes, justifica que os aportes ajudarão “para continuar essa GUERRA entre o BEM e o MAL” (sic) . A Revoltados On Line também alerta seus seguidores que a “Globo está defendendo o PT” e, em mais de uma publicação, brada contra o “resultado fraudado” das últimas eleições presidenciais.

Os entusiastas da página compartilham a repulsa ao partido governista: às 05h13 do dia 07/08,  21 pessoas curtiram o seguinte comentário “se os ratos do pt esta ajindo veneno neles a vamos acabar com esses ratos jente” (sic). Um comentário anterior, publicado às 20h25 do dia 06/08, celebrou o sucesso do panelaço e angariou 129 curtidas: “a panela vazia é o ‘fuzil’ do povo e cada batida é um tiro”.

A impopularidade do governo Dilma, levada às últimas consequências pelos participantes dessas páginas, não é uma obra de ficção. Segundo o Datafolha, 71% dos brasileiros consideram a atual administração petista ruim ou péssima. No entanto, as ações coletivas que vêm sendo concertadas contra o governo impopular representam um verdadeiro movimento social?

Os movimentos sociais são uma das formas mais poderosas de ação coletiva e, quando envolvem campanhas firmes e bem organizadas, podem alcançar resultados significativos. Como exemplo de movimentos bem sucedidos, Anthony Giddens aponta a luta norte-americana pelos direitos civis, que conseguiu a aprovação de leis antissegregacionistas; o movimento feminista, que conquistou ganhos em termos de igualdade econômica e política; e os movimentos ambientalistas, que promovem campanhas sobre formas sustentáveis de desenvolvimento econômico.

Para que determinada ação coletiva assuma a forma de movimento social, algumas características devem ser observadas. Assim como milhares de pessoas tirando o pé no chão ao som do Chiclete com Banana não significa a luta contra coisa alguma, também o simples ato de bater panelas não fala por si só. É por isso que, na análise que fazemos, antes de tudo cabe se perguntar a respeito do projeto social sobre o qual o movimento foi erigido.

Para Alain Touraine, além de uma determinada concepção de sociedade que lhes dê sustentação, os movimentos sociais apresentam três elementos constitutivos: o ator, o adversário e o que está em jogo no conflito. Com base nesses elementos, três princípios explicam os movimentos sociais: o da identidade (quem somos?), o da oposição (contra quem lutamos?) e o da totalidade (por que temos que ganhar a luta?). A partir desse modelo teórico, portanto, não se pode dizer que os movimentos sociais sejam sempre negativos ou positivos, ou que eles devam ter uma essência progressista ou regressista: o anarquismo e o comunismo, por exemplo, são movimentos sociais tanto quanto o são o fascismo, o macarthismo, o feminismo, os movimentos nacionalistas, os movimentos LGBT etc.

No Brasil, desde o final da década de 1980, os movimentos sociais têm deixado de considerar o Estado como o seu principal adversário, assumindo novas demandas da sociedade civil. Pode-se dizer, com Maria da Glória Gohn, que após a Constituição de 1988, ao invés de buscar tomar o poder do Estado, a reivindicação passou a ser a garantia de direitos sociais já reconhecidos em lei, o que obrigou os movimentos a alterarem suas ações contestatórias.

Apesar da tendência dos movimentos sociais pós-ditadura indicar uma reorientação da pauta de reivindicações, ações como o panelaço e a manifestação do próximo dia 16 de agosto seguem o rumo oposto. Para os apoiadores desses protestos, o objetivo é um só: derrubar o governo do PT. No discurso das páginas do Facebook, os concertadores dos eventos não divulgam manifestos, notas ou documentos que pudessem expressar seu projeto coletivo de sociedade ou as mudanças a serem engendradas pelos representantes que sucederiam a administração petista. Nem mesmo o lugar-comum da corrupção parece servir de mote à indignação. Afinal, um movimento contra o “mar de lama” jamais poderia considerar Eduardo Cunha (PMDB/RJ), sabidamente investigado na operação Lava-Jato, como um de seus aliados.

Na verdade, embora representem parte da população insatisfeita com o sofrível governo Dilma, os protestos não constituem um movimento social. Essas ações orquestradas são viabilizadas muito mais pela facilidade de comunicação propiciada pelo Facebook do que pela verdadeira identificação com um projeto social. Nesse ponto, é interessante notar que a fácil mobilização de recursos para organizar as ações torna pouco relevante o grau do engajamento de quem adere a esses eventos. É exatamente o oposto do que ocorria, nos Estados Unidos do anos 1930-1970,  com “os movimentos de pessoas pobres” (analisados por Piven e Cloward): nesses, o engajamento de ativistas entusiasmados alcançavam grandes conquistas apesar do acesso muito limitado a recursos.

Diferentemente do que víamos há bem pouco tempo, hoje, para organizar um protesto, não é preciso participar de longas reuniões com a militância (e é nelas que se pensa “quem somos? quem é o adversário? o que acontecerá se ganharmos?), fazer panfletagem nas ruas, passar em salas de aula, convencer as pessoas “no gogó”.  Já não é necessário nenhum esforço físico, financeiro ou reflexivo: para encampar a pauta da manifestação, basta olhar a timeline, curtir o evento na rede social, compartilhar uma ou outra postagem.

O certo é que, mesmo se os recentes protestos realmente constituíssem uma forma de luta contra a corrupção, também caberia refletir até que ponto a ideia de um espaço público sujo, dominado por “ratos corruptos”, contribui mais para a desinformação e para o desinteresse geral por questões políticas do que para o desenvolvimento dos valores societais.

Um mínimo esforço intelectual nos mostra que a disputa política não equivale a uma guerra do bem contra o mal, dos impolutos contra os corruptos. Opor o público ao privado dessa forma, além de ingenuidade ou má-fé, é aceitar a colonização do cidadão pelo indivíduo, assim como lutar “contra tudo que está aí” não é nada mais que endossar a célebre frase de Lampedusa: “É preciso que tudo mude para que tudo continue como está”. Mas isso é assunto para outra conversa…

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Diana é defensora pública e mestre em desenvolvimento regional. Escrever no Pandora Livre é parte do seu plano de se tornar uma burocrata descolada.

Politicário

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