CARNACOXINHA: O Carnaval dos Protestos

Lola Aronovich

Do alto de um trio elétrico em pleno calor da praia de Copacabana, comandando uma multidão animadíssima, Batman, que pendura na cintura uma bandeirinha do Brasil, ergue, em posição altivamente heroica, uma estrela do PT em chamas.

cap americaEm outro lugar, o Capitão Brasil (versão exótica do Capitão América), que também foi chamado por alguns de Sargento Brasil, exibe o seu escudo redondo com as cores verde-branco-amarelo-azul e pega o microfone, em cima do trio, para gritar palavras de animação para os que o acompanhavam.

Longe do bloco dos super-heróis, o Obama de Brasília posa para uma foto com a mão sobre o peito, fazendo uma saudação oficial.eu tou voltando...

Na Av. Paulista, um padre com a batina preta, segurando uma garrafa d’água e uma bandeira do Brasil na mão esquerda, ergue o braço direito sobre a cabeça de um folião (este que, pelo abadá, certamente estava acompanhando o bloco do Batman) e balbucia algumas palavras inaudíveis. Não sei bem se aquilo se tratava de uma tentativa de exorcismo ou se era uma bênção divina mesmo.aecio de papelao

No meio disso tudo, em uma pequena jaula, uma mulher sem blusa e com o corpo pintado de esqueleto (achei que lembrava mais uma mistura do Kiss com o Olodum) faz uma dança sensual, de alguma forma querendo exteriorizar um protesto que, na realidade, não consegui entender bem. Seria um protesto contra a fome?!

Tudo isso se parece muito com carnaval. Mas são manifestações de caráter político.

De fato, esse cenário carnavalesco tem sido uma constante nas manifestações mais recentes, ejornalistas livres atualmente as fantasias passam a aparecer como apetrecho quase que essencial ao seu dono-manifestante. Além das mencionadas, várias outras vestes têm embalado os protestos brasileiros, e embora a maioria dos manifestantes esteja caracterizada como jogador de futebol, tem gente vestida de Dilma, de Lula, de Moro, de militar, de Miss Mandioca, de palhaço e, pasmem, até de coxinha.

Seja como for, os flashes dos últimos grandes protestos no Brasil não me deixam mentir: há um quê de Olinda nisso tudo.Laura Viana - Brasil de Fato

Inclusive, é bem verdade que os protestos que ocorrem em Pernambuco têm sido todos embalados em um bom e animado frevo, contando até com a versão boneco de olinda do Sérgio Moro, que é pra ninguém achar defeito e sair falando que o Estado não valoriza as tradições locais.  Já em Brasília, em uma versão correlata, foi encomendado um balão de ar com a imagem do ex-presidente Lula, que, por sinal, custou a bagatela de 12 mil reais.

E não são apenas as fantasias que atestam essa realidade. A mais moderna tendência da manifestação carnavalesca tem sido os protestos coreografados. Depois do sucesso pioneiro do “Dançando Fora Dilma” em Fortaleza, cujo vídeo viralizou na internet, vários grupos de manifestantes dançarinos organizaram apresentações ensaiadas e, inclusive, coordenadas por coreógrafos profissionais. É literalmente o tira-o-pé-do-chão.

Outra nova onda que tem sido destaque nas recentes manifestações é a reprodução do tradicional bunda-lê-lê. O processo se caracteriza por envolver a participação de pessoas de várias idades (inclusive um grupo de senhorezinhos, que baixou as calças em frente ao Palácio do Planalto) e por ocorrer de maneira espontânea, sem muita necessidade de ensaio.

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Créditos: Cibelle Soares

Nos festejos carnavalescos, é bem comum que as pessoas estejam à vontade, mais desprendidas de valores morais, e em geral utilizando produtos etílicos para deixá-los mais desinibidos. Assim, é frequente também encontrar nos protestos pessoas ingerindo aquela cervejinha gelada com espetinho de frango com bacon, comprados aos vendedores ambulantes, que não pode faltar em nenhuma manifestação. Alguns foliões-manifestantes que não querem gastar dinheiro com camelô levam seu próprio isopor (com rodinhas) e curtem o protesto (de maneira pacífica e ordeira, obviamente).

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Créditos: Cibelle Soares

Outra característica de todo protesto-carnaval é a música animada e envolvente. Para além dos gritos de gincana estilo “passou/passou/passou um avião…”, os trios elétricos contam com DJs e animadores. Em João Pessoa, o DJ convidado para puxar o trio foi o chamado DJ Coxinha, que trazia em seu acervo diversos hits e paródias anti-PT.

A coisa toda do carnaval-protesto/protesto-carnaval anda tão interligada que surgiu, durante as manifestações de 16 de agosto, nas redes sociais, a hashtag #CarnaCoxinha. A expressão foi tão retuitada pelos internautas contrários ao protesto que chegou a ocupar o primeiro lugar nos trending topics mundiais.

ato-sp-07Evidentemente, neste momento de tensão política, muito da criatividade exibida tradicionalmente pelo foliões brasileiros nos carnavais de rua está canalizada para as manifestações. No entanto, o mais espantoso disso tudo é constatar que, diante de tantos cartazes abomináveis, do tipo “Brazil will never be Cuba”, “Volta Sarney”, “Bolsonaro em 2018”, “Somos milhões de Cunhas”, “Fora comunistas”, “Intervenção militar constitucional já”, “Brasil sem corrupção é país em que rico manda, porque rico não precisa roubar” ou os terríveis “Dilma, pena que não te enforcaram no DOI-CODI” e “Porquê não mataram todos em 1964?” (sic), talvez o ápice de nossa (ir)racionalidade festiva não seja nem de longe o pior dos nossos problemas, a não ser que, na verdade, tudo isso também seja parte das alegorias carnavalescas.

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clarissa-alves

Clarissa é professora e doutoranda na área de direitos humanos e desenvolvimento. Pesquisa feminismo, migrações e relações de trabalho. Se calhar, está disposta a largar a academia e viver de sua arte.

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