De volta à mãe natureza

Há algumas décadas os movimentos ecológicos vêm, justamente, denunciando os males que o desenvolvimento da indústria e da ciência vêm fazendo ao meio ambiente e à saúde dos seres humanos. Nessa luta contra os malfeitos da química, da fármaco-química, da medicina e da engenharia, uma ideologia – dentre as muitas – passa a ser construída clamando pela supremacia dos desejos da mãe natureza.

Nesse apelo àquela que é perfeita e tudo sabe, as mulheres são as primeiras interpeladas para atender ao chamado do mundo natural. Sem querer, querendo, um discurso muito antigo, conhecido nosso, volta à tona: nascemos para ser mães, foi o que a sábia natureza nos reservou. Respeitemos os seus mandamentos.

Quando Simone de Beauvoir afirmou “não se nasce mulher, torna-se mulher”, ela alertava ao fato de que não temos um destino pré-definido capaz de ditar nossas capacidades, o que somos e o que seremos. Era preciso mostrar que as potencialidades femininas eram restritas por uma ideologia opressiva que atribuía às mulheres um lugar específico e marginalizado no mundo. A justificativa a essa preleção vinha em nome, claro, da sábia natureza. Ela dita as leis, cabe a nós cumpri-las. Até que Beauvoir demonstra as falácias em torno desse discurso, dando importância às construções sociais e rebatendo a tese de um destino pré-concebido a homens e mulheres.

Parece que passada a memória da nossa heroína francesa, o apelo à mulher-mãe vem retomando força. Na superfície, tem-se uma discussão importante: a denúncia do abuso médico e hospitalar, que precisava ser feita e tem inúmeras justificações dignas que visam, sobretudo, a saúde e o bem-estar da mãe e do bebê. No entanto, sorrateiramente, uma deturpação dessa denúncia – deturpação, que fique claro – pode trazer ao fundo uma ideologia que não parece ser libertadora para as mulheres.

Tudo se inicia no parto. O parto ideal: tem de ser normal e, preferencialmente, sem intervenções. Comumente, feito dessa maneira, existem menos riscos para a vida e a saúde dos envolvidos. No entanto, muito pelo comodismo da equipe hospitalar, não havia o suficiente esclarecimento desses benefícios para as gestantes, que eram convencidas a fazer o parto cesáreo. Por essa razão, denunciar a sua imposição desnecessária e os seus riscos era e é primordial. O problema é quando se cria uma ideologia da mãe perfeita que passa a demonizar e a fazer patrulhamento ideológico com as mulheres que não querem, mesmo que informadas, submeter-se ao parto ideal.

Capa do livro "O Conflito - A mulher e a mãe", de Elisabeth Badinter (Editora Record).
Capa do livro “O Conflito – A mulher e a mãe”, de Elisabeth Badinter (Editora Record).

 Algumas vozes, então, apontam que esta não vai ser uma boa mãe. É covarde, fraca, pois não se sacrifica pelo bem do seu bebê. Você foi feita para isso, afirmam. A mãe guerreira, a mãe heroína, tudo faz pelo bem dos seus rebentos. O sofrimento e a dor são dignificantes, porque a boa mãe não reclama e está disposta a qualquer coisa pelos seus filhos. É um discurso, vocês podem perceber, muito familiar, que se assemelha à mais opressiva censura religiosa.

Assimilando essa ideia distorcida da patrulha, as mães que de fato não podem fazer um parto normal passam a se sentir péssimas; culpadas e desanimadas porque o seu corpo não é bom o suficiente. Pensam que só podem ser um desvio da natureza, que lhes amaldiçoou com um organismo aparentemente incapaz de executar aquilo que lhes seria predestinado.

A filósofa Elisabeth Badinter tem denunciado esse fenômeno que também tem ganhado espaço na Europa. Em um dos seus recentes livros, O Conflito – A mulher e a mãe, Badinter denuncia o retorno do discurso da mãe perfeita, que se inicia no parto e inevitavelmente convoca as mulheres a voltarem para casa.

Após o parto, a patrulha pró-neném indica que se deve amamentar idealmente até os dois anos de idade e que se deve dedicar aos filhos tempo integral. Se possível, pare de trabalhar. Creches? Jamais! Você está apenas investindo para ganhar em dobro no futuro. As crianças precisam crescer saudáveis, perfeitas e, claro, plenamente capazes de competir no mercado de trabalho. Traumas? Você não pode deixar que eles aconteçam. Se um pequeno desvio ocorrer, de quem é a culpa? Da mãe, claro!

Muitas mulheres atualmente tentam responder à geração anterior, que trabalhava muito e tinham pouco tempo para os filhos. Possivelmente atribuem suas frustrações à mãe ”desnaturada” que tiveram. Isso não vai se repetir! Seus filhos não terão frustrações, porque você vai fazer o possível e o impossível para que eles sejam plenamente felizes e bem-sucedidos.

Essa ideologia curiosamente também contamina as mulheres que não querem ter filhos. Fora as que por convicção não se interessam pela maternidade, muitas desistem de exercê-la porque assimilam o arquétipo da mãe perfeita e infalível. Por acharem que a maternidade é uma atividade que exige uma renúncia de outro mundo, escolhem abandoná-la para não terem que abdicar da sua carreira e da sua vida pessoal. Em países como o Japão, a Itália e a Alemanha, onde o discurso da mãe ideal e protetora é bastante forte, o número de mulheres que escolhem não ter filhos é consideravelmente maior do que na França, por exemplo, que historicamente é bastante resistente aos estereótipos do cuidado materno.

Enquanto isso, engrossa-se o rol de responsabilidades para as mulheres sem que aconteçam mudanças consideráveis no comportamento dos homens em relação ao mundo doméstico. Como já falei por aqui, no Brasil, as mulheres ainda dedicam 150% a mais do seu tempo nas atividades domésticas do que os seus companheiros. Ainda que as brasileiras tenham mais tempo de estudo que os homens e que elas correspondam a uma parcela significativa e crescente dentro do mercado de trabalho, elas estão fora dos altos escalões das empresas e instituições. Entre outras variáveis, a sobrecarga com os afazeres domésticos e com a maternidade não lhes permite esse tipo de conquista.

É preciso ressaltar que a luta pelo parto humanizado, pelo aleitamento materno e pela saúde da mãe e da criança é de crucial importância, mas é preciso pensar sobre qual ideologia está fundado esse combate, buscando benefícios reais para as mulheres. Existem diversos argumentos para fundamentá-lo e implementá-lo. Se o discurso selecionado se choca com a possibilidade de liberdade das mulheres, é preciso reavaliá-lo.

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mariana-nobrega

Mariana é doutoranda em ciências criminais e mestra em ciências jurídicas. Pesquisa sobre direitos humanos, teorias feministas e criminologia. Também é servidora pública e mais uma advogada de araque neste país de direitoloides.

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