Tsipras e a democracia grega

Foto: Michel Christen/ GUE/ NGL - fotospublicas.com
Foto: Michel Christen/ GUE/ NGL – fotospublicas.com

Na tarde de hoje, os boatos se confirmaram: em rede nacional, Alexis Tsipras anunciou sua renúncia ao cargo de primeiro-ministro da Grécia. Com isso, em menos de um ano, os gregos deverão ir às urnas pela terceira vez, possivelmente no próximo dia 20 de setembro. As perspectivas, no entanto, não são animadoras: depois de negar as políticas de austeridade por duas vezes – com a eleição do Syriza e a vitória do “não” no plebiscito – , a Grécia acabou por se submeter a um novo acordo com seus credores; além disso, a crise migratória se agravou com a chegada de 21 mil imigrantes somente na última semana.

“Meu mandato de 25 de janeiro venceu. Agora o povo deve se pronunciar. Vocês, com seu voto, decidirão se negociamos bem ou não”, disse o premiê grego no pronunciamento. “Sei que não logramos tudo o que prometemos ao povo grego, mas salvamos o país, dizendo à Europa que a austeridade deve acabar”, completou.

Berço mundial da democracia, a Grécia adota um regime parlamentarista por meio do qual o primeiro-ministro, como Chefe de Governo, é o líder do partido político que tiver obtido mais assentos nas eleições.

A data prevista não foi escolhida à toa. Até lá, as dívidas com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Central Europeu (BCE) terão sido pagas por meio do socorro de 23 bilhões de euros junto ao Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), confirmado algumas horas antes do anúncio.

Dois dias atrás, o governo Tsipras formalizara a privatização de 14 aeroportos regionais, no valor total de 1,23 bilhões de euros, como parte do acordo que prevê, no total, a arrecadação de 50 bilhões de euros por meio da privatização de aeroportos, bancos públicos e da distribuição de energia elétrica, para as quais empresas da União Europeia já se candidataram.

Foto: Guido Bergmann/ Bundesregierung – Bergmann - fotospublicas.com
Foto: Guido Bergmann/ Bundesregierung – Bergmann – fotospublicas.com

Curiosamente, os novos donos dos aeroportos gregos serão os alemães, seus grandes credores, representados pelo consórcio Fraport-Slentel. Perto do FMI, que lucrou 2,5 bilhões de euros, entre 2010 e 2014, com os empréstimos à Grécia, os alemães parecem os maiores beneficiários: estima-se que já tenham lucrado 100 bilhões de euros com a crise helênica.

O acordo de austeridade celebrado com os credores logo após a vitória do “não” foi aprovado com sufoco no Parlamento, evidenciando a dissidência interna aberta no próprio partido do governo. Já nas eleições de 25 de janeiro, o Syriza não havia obtido maioria absoluta parlamentar, tendo se aliado ao Gregos Independentes, partido da direita nacionalista, para conseguir formar uma coalizão contra a austeridade. Em segundo lugar havia ficado a legenda Nova Democracia, o partido de centro-direita do premiê anterior, Antonis Samaras. Em terceiro, o partido de extrema direita Aurora Dourada, cujos líderes são acusados de práticas criminosas de inspiração neonazista.

Feito o acordo de austeridade, os pontos de divergência entre o Syriza e o Gregos Independentes devem começar a aparecer. As legendas discordam diametralmente em uma questão bastante cara à Grécia neste momento: como lidar com a imigração.

Convocado novamente a adotar postura com urgência em defesa da unidade europeia – dessa vez, antes que os imigrantes cheguem aos quintais de seus antigos colonizadores – , Tsipras, que mantém a popularidade em alta, continua a apostar na democracia para a definição do destino do país, não sem antes ter libertado centenas de imigrantes que estavam presos e confinados em precários centros de detenção.

Oriundos sobretudo da Síria, do Iraque e do Afeganistão, onde as crises humanitárias são muito mais profundas e devastadoras do que as potencialmente advindas da atual conjuntura econômica grega, os desesperados imigrantes agora pedem socorro, por sua sobrevivência e dignidade, aos mesmos helênicos que se insurgiram contra a humilhação e a arrogância de seus conterrâneos europeus.

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camila-torres

Camila é advogada pública. Especialista em Direito Público, interessa-se por temas referentes à política nacional e internacional e questões socioambientais.

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