Aviso aos navegantes: a Guerra Fria acabou

Foto: Cibelle Soares
Foto: Cibelle Soares

Como um personagem do filme “Adeus, Lênin”, a sensação, na semana passada, foi a de mergulhar no velho mundo binário da Guerra Fria: cartazes com dizeres como “Down with communism” ou “Brasil sem comunismo – de mãos dadas pela liberdade” espalhados pela Avenida Paulista pareciam resgatados da garagem empoeirada dos nossos avós. No noticiário internacional, a suspeita era reforçada: documentos vazados por Edward Snowden – aquele delator que, na imaginação dos roteiristas da série 007, seria um infiltrado da KGB –, sugerem que, nos últimos anos, os EUA estariam espionando a alta cúpula da ONU por meio da agência de telecomunicações AT&T.

Quando o regime soviético colapsou, há 24 anos, a cruzada contra o “Império do Mal” chegou ao fim, enterrando consigo o preto-no-branco que explicava tão facilmente a correlação de forças dos anos anteriores.

Naquelas décadas, o lado soviético também se valia de uma tal teoria dos dois campos para embalar a opinião pública por meio de um antagonismo entre o bem e o mal, determinando que todas as esferas de pensamento estariam divididas em dois campos inconciliáveis e excludentes entre si: na filosofia e na ciência, idealismo se opunha a materialismo; na biologia, a genética reacionária de Mendel rivalizava com a genética revolucionária de Michurin e Lisenko; nas artes, o subjetivismo burguês atritava-se com o realismo socialista; na política, finalmente, capitalistas e comunistas amavam odiar-se.

Foto: Cibelle Soares
Foto: Cibelle Soares

No atual estágio da globalização, as relações entre os países, a economia, a cultura e a política são mais complexas, interdependentes e difíceis de entender. Ainda que se fale em multipolaridade, não é mais tão simples distinguir quais são as áreas de influência de cada um dos variados blocos.

Essa proliferação de atores bagunçou a cabeça de muita gente, que rejeita essa multipolarização e prefere continuar interpretando o mundo de acordo com as duas velhas perspectivas de dualismo – são os requentadores da Guerra Fria de que já se falou aqui no Pandora. E a neurociência explica: “amamos teorias da conspiração porque temos a necessidade de explicar por que as coisas acontecem na nossa vida; nós queremos dar causas para os efeitos, razões para o que acontece no mundo”, afirma Michael Shermer, autor do livro “Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas?”.

Como bons primatas, os humanos são territorialistas e têm um cérebro que trabalha em busca de padrões. Com isso, há uma tendência instintiva a buscar associações entre situações com as quais nos deparamos. Quando conseguimos formar essa ligação, nosso cérebro libera dopamina – a “molécula da motivação” –, provocando uma sensação de prazer e recompensa. Ainda que essas conexões não correspondam à realidade, o cérebro se delicia em conectar causa e consequência. Por isso, inclinamo-nos mais a conjecturar do que a duvidar. “Encontrar conexões é gratificante”, explica Shermer.

No mundo dividido ao meio, era mais simples criar essas associações: não era preciso ir muito além da capacidade de distinção dos ancestrais primatas para formar conexões imediatas de informações e classificá-las como oriundas de um ou de outro lado. Com tantas associações fáceis, a dopamina rolava solta. Talvez por isso, passados os receios de guerra nuclear iminente, essa época pareça ter deixado saudades até mesmo em quem não a viveu.

Por aqui, saudosos do velho establishment adoram creditar ao Foro de São Paulo o status de ameaça real à propriedade privada. São os mesmos que abraçam as teorias conspiratórias e acreditam que a ditadura comunista-bolivariana se instaurará no Brasil nas próximas horas, embora o PT já esteja há doze anos no poder e tenha incentivado como sempre e como nunca o consumo no país.

O Foro de São Paulo não é uma rede secreta de conspiração para o golpe comunista, como desejam acreditar os amantes dessas confabulações. Criada em 1990, a organização congrega partidos e organizações de esquerda da América Latina e tem como pauta central, nos dias de hoje, a integração regional latino-americana.

Foto: Cibelle Soares
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Ocorre que, de acordo com essa interpretação binária do mundo, a integração latino-americana é apenas uma expressão “fofa” (obrigada, Pondé) para a implantação de um governo comunista nessa região do continente. Por isso, para eles, a UNASUL representaria uma implantação velada do comunismo na América Latina. “Já está acontecendo”, alarmam, embora a ascensão da esquerda nos governos da região já tenha se dado há pelo menos uma década. Revolução lenta para o imediatismo pós-moderno no qual o espaço e o tempo são tão comprimidos, não?

Não são só essas peças que faltam ao quebra-cabeça. Por que, por exemplo, a UNASUL é vista como um ensaio de governo comunista regional, mas a União Europeia – que integrou o continente europeu em níveis muito mais profundos – não o é? E por que a turma que se arrepia com o Foro de São Paulo não tem o mesmo medo do Clube de Bilderberg, aquele que reúne secretamente os mais influentes políticos e empresários do mundo, e que realmente teria poder para determinar o curso do planeta?

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Foto: Clarissa Alves | Olavo de Carvalho é um dos mentores dos atormentados por pesadelos com comunistas.

É provável que esse pessoal, ou alguns de seus líderes, até consiga perceber a inconsistência de suas teses. E se assim for, o que os move a repetir mantras de alarme por aí? Em “A Era dos Extremos”, Eric Hobsbawm analisa que, quando Ronald Reagan qualificou o comunismo como a “personificação do mal”, estava, na verdade, resgatando a excitação pública após a humilhação sofrida na Guerra do Vietnã ao mesmo tempo em que mirava contra a lembrança doméstica do Estado de Bem-estar Social dos tempos de Roosevelt. No Brasil,  um tradicional semanário – olhe, nem preciso dizer qual – trabalha diuturnamente para dar ares de seriedade e trazer a seus leitores a sensação de pertencerem ao seleto grupo de clarividentes que sabe que já vivemos em uma ditadura. Quem lembra da menina histérica que se queixava da falta de liberdade de expressão enquanto fazia pleno uso dela?

No atual contexto de economias interconectadas, expectativas pessimistas influenciam o comportamento do mercado de tal modo que as profecias de crise se autorrealizam. Por isso, é preciso frear a promoção do pânico e reassentar a razão de quem não busca conexões conchavadoras  movido por  interesses não declarados.

Eu sei, o preto-no-branco era mais fácil de entender do que todo esse pluralismo fluido. Bem e Mal, Capitalismo e Comunismo, Ciclone Vermelhoversus Robocop, vilão ou bom moço, Beatles ou Rolling Stones. Mas façamos um esforço para enxergar, se não com todas as cores, pelo menos em escala de cinza o cenário onde se correlacionam as múltiplas forças contemporâneas.

Podem sair do bunker e respirar aliviados – aqui no Brasil, não se tem notícia de projeto para enrubescer nossa bandeira. Constantino, não sofra: o “2014” do logo da Copa não era uma mensagem subliminar de propaganda do PT ou do socialismo. O coitado do designer só curtia uma cor quente.

Quando a novela termina, a gente sente saudades de odiar seus personagens, mas há uma razão pela qual o enredo acaba quando chegamos ao breve e lacônico felizes-para-sempre: sentimentos serenos só distraem por um período curto; as fortes emoções são fundamentais para o envolvimento e a aprendizagem. A emancipação do dia seguinte traz um jogo de signos mais chato e complicado, porque exige uma batalha contra nossos instintos ávidos por padrões.

Não é à toa que algumas selfies da Paulista no penúltimo domingo podem ser facilmente confundidas com as da Vila Madalena em dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo passada, como uma rejeição a toda essa complexificação da política nacional.  O que a gente quer é um Fla-Flu. Na falta de algo melhor, serve até um Vale a pena ver de novo.

Mas evoluir socialmente é também saber conter nossos instintos primatas e obrigar a razão a caminhar adiante. Um pouco de receio é o freio de que precisamos para fugir de situações de risco, mas o truísmo que canta nos nossos ouvidos precisa ser evitado. Por isso, desconfiemos de tudo o que nos inclina ao derby no mundo político. Supor é bom e questionar, também, mas é preciso que ambas as atitudes estejam fundadas em boas razões. Quando falta reflexão – ou interpretação de texto, como diz Sakamoto – , sobra espaço para os salvacionistas.

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camila-torres

Camila é advogada pública. Especialista em Direito Público, interessa-se por temas referentes à política nacional e internacional e questões socioambientais.

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