Entenda os diferentes feminismos

Loucas, histéricas, mal-amadas, destruidoras da família, filhas de Satã. Esses são alguns dos adjetivos não tão simpáticos proferidos contra as feministas. Não dá para revolucionar séculos de desigualdade e opressão contra as mulheres passando assim despercebidas, sem incomodar ninguém. Houve e há resistência e, apesar disso, pode-se afirmar que o feminismo foi um dos movimentos sociais mais bem-sucedidos do século XX, mudando drasticamente as relações humanas dentro do espaço público e privado.

Foi um dos filhos (indesejados) da Revolução Francesa, surgindo como movimento organizado apenas no final do século XVIII. De qualquer maneira, é possível afirmar que sempre que alguém reivindicou a igualdade de mulheres perante os homens, exigindo a superação da condição de subordinação feminina ao longo da história, houve uma manifestação feminista. No entanto, você já deve ter ouvido falar (ou deveria) que o feminismo não é um movimento de pensamento unívoco; existem várias manifestações e diversas correntes. Quais seriam exatamente essas diferenças? O Pandora Livre explica.

As correntes de pensamento feminista se diferenciam especificamente porque apontam uma diferente raiz para o problema da opressão feminina e uma diferente forma de combater essa questão. Para entender um pouco sobre essa diversidade, escolhemos três correntes de relevo que dão origem a uma outra infinidade delas: o feminismo liberal, o feminismo marxista e o feminismo radical. Ao fim, pincelaremos algumas das principais manifestações atuais. Vamos dar um breve mergulho em todas elas.

 O feminismo liberal 

Como mencionado há pouco, o feminismo é uma ovelha desgarrada da Revolução Francesa. O Iluminismo, que fundamentou filosoficamente esse momento paradigmático da história do ocidente, pregava belas ideias de liberdade, igualdade entre todas pessoas. Mas, peraí! Essa igualdade não incluía metade da população: as mulheres. Tomada a Bastilha, sacanearam com aquelas que ajudaram a construir a Revolução. Estabelecida a nova ordem, ainda se continuou a relegar às mulheres a condição de cidadãs de segunda classe, sem qualquer poder de decisão sobre os destinos da nova sociedade que se formava.

Votes For Women
Na foto, as famosas suffragettes, feministas liberais conhecidas pela luta pelo direito ao sufrágio . As reivindicações do feminismo dessa época foram muito relevantes, o que permitiu que, na primeira metade do século XX, diversas delas fossem formalmente atendidas, como o direito de votar e ser votada, ingresso nas instituições escolares e participação no mercado de trabalho. Lentamente também se observou uma mudança nos códigos civis, que passaram a proclamar a igualdade de direitos entre os cônjuges.

Alguma atrevida começou a se pronunciar, solicitando a radicalização do conceito de igualdade que tanto pregavam, incluindo realmente toda a população. Essa moçoila foi a célebre Olympe de Gouges. Olympe quis reescrever o documento principiológico da Revolução Francesa, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que não mencionava as mulheres, redigindo a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. No novo documento, proclamava que as mulheres também possuíam direitos inalienáveis, tais como a liberdade, a propriedade e o direito à resistência contra a opressão. Se as mulheres podem subir ao cadafalso e ser punidas por suas condutas e opiniões, também podem subir na tribuna e participar das decisões políticas.

Por esses motivos, e por ser uma crítica ferrenha dos procedimentos jacobinos, como o uso disseminado da pena de morte, uma de nossas pioneiras foi condenada e morta na guilhotina.

Na Inglaterra, Mary Wollstonecraft escreve A Vindication of the Rights of Woman (1792), em que questiona a disseminada tese de que as mulheres eram naturalmente inferiores aos homens. Wollstonecraft defendia que homens e mulheres tinham iguais capacidades, no entanto, a falta de educação igualitária evitava que as mulheres pudessem desenvolvê-las completamente.

As feministas desse momento, então, tentavam radicalizar o projeto igualitário Iluminista, de forma que este pudesse ser coerente, reivindicando a inclusão das mulheres nessa nova ordem social que superava o absolutismo monárquico. Negavam a existência de uma natureza que definiria a capacidade dos sexos e acreditavam que as diferenças entre homens e mulheres eram fruto da falta de educação igualitária e de direitos civis e políticos.  O capitalismo, dessa forma, apenas precisaria ser aperfeiçoado com algumas reformas que beneficiariam as mulheres, como educação igualitária e inserção na vida pública, política. Com o fim da discriminação e a mudança de mentalidades as mulheres finalmente alcançariam a sua emancipação.

O feminismo marxista 

Com o desenvolvimento do capitalismo e a sedimentação da Revolução Industrial, novos problemas passam a se pôr nessa nova forma de sociedade, e a classe proletária emerge como principal crítica às mudanças desse período, já que foi o grupo que se viu em maiores desvantagens.

Alexandra Kollontai
Na foto, Alexandra Kollontai, uma das principais representantes do feminismo marxista. Ela acreditava que apenas com o socialismo as mulheres poderiam exercer seu trabalho plenamente, pois lhes seria de direito a socialização do trabalho doméstico, a assistência infantil, a licença-maternidade, dentre outros direitos econômicos e sociais.

Tinha-se o proletariado excluído da riqueza por ele produzida na indústria, e as mulheres, que sequer gozavam dos direitos civis e políticos básicos, quando pertencentes à classe trabalhadora, tinham potencializada sua situação de degradação e miséria. Surge, então, o movimento socialista marxista, inspirado na crítica de Karl Marx ao capitalismo, que vem também a influenciar o surgimento de uma nova concepção de feminismo, denominada feminismo marxista.

Influenciado pela análise econômica marxista e pela valorização dos direitos relacionados ao trabalho, o feminismo marxista entendia que a causa da subordinação feminina adviria da própria organização da economia e do mundo do trabalho. Sendo assim, a libertação das mulheres se daria com a abolição da propriedade privada e com a transformação da divisão sexual do trabalho.

Tal concepção tem forte influência da obra de Engels, A origem da Família, da Propriedade e do Estado. Esta explica que a origem da opressão histórica às mulheres se localizaria no momento da aparição da propriedade privada e da sociedade dividida em classes. A necessidade dos homens de transmitir a propriedade por herança e, para isso, ter certeza de sua descendência, fez com que fosse necessária a instituição do casamento monogâmico. Dessa maneira, as mulheres foram colocadas sob o controle de seus maridos, dentro da esfera privada da família e fora da produção social.

O feminismo radical  

O feminismo radical ganha relevância em torno dos anos 1970. Sua nomenclatura não denota alguma espécie particular de extremismo, mas tem razão de ser porque as fundadoras de tal vertente acreditaram encontrar a “raiz” da dominação masculina, que seria o patriarcado.

 Na foto, Simone de Beauvoir. Houve um gap entre a emergência do feminismo marxista e do feminismo radical e Beauvoir foi uma voz solitária nesse período de transição. Na sua obra de 1949, O Segundo Sexo, ela dá as bases para a configuração do conceito de gênero, usado nos feminismos posteriores. Ela afirma que não há uma natureza feminina, frágil e imperfeita, mas papeis socialmente construídos e atribuídos às mulheres que lhes dariam essa condição de inferioridade. O gênero seria, então, a construção social do que seria feminino e masculino.

Na foto, Simone de Beauvoir. Houve um gap entre a emergência do feminismo marxista e do feminismo radical e Beauvoir foi uma voz solitária nesse período de transição. Na sua obra de 1949, O Segundo Sexo, ela dá as bases para a configuração do conceito de gênero, usado nos feminismos posteriores. Ela afirma que não há uma natureza feminina, frágil e imperfeita, mas papeis socialmente construídos e atribuídos às mulheres que lhes dariam essa condição de inferioridade. O gênero seria, então, a construção social do que seria feminino e masculino.

O patriarcado é uma ideologia que organiza e divide o mundo em princípios e valores duais, tais como razão/emoção, objetivo/subjetivo, público/privado. Esses aspectos, todavia, não são considerados de igual importância. Os primeiros, como no exemplo, seriam considerados socialmente superiores e ao sexo masculino seriam atribuídas suas características. Em contrapartida, os atributos considerados frágeis e imperfeitos seriam pertencentes às mulheres. O patriarcado se fundamentaria, portanto, atribuindo uma natureza inferior e imutável às mulheres, o que legitimaria sua condição de subalternidade.

Essa ideologia se manifestaria no controle dos corpos femininos, especialmente pelo controle da maternidade e da sexualidade das mulheres. Primeiramente, teria manifestação no espaço da família e no que fosse relacionado à reprodução, e, posteriormente, alcançaria os níveis político, econômico e jurídico.

Assim, para essa corrente, não seria o sistema econômico que oprimiria as mulheres, mas o sistema de dominação social do sexo. Diferiria tanto do feminismo liberal quanto do marxista no campo do pensamento e no de ação. Para elas, o reformismo liberal possuía uma análise muito superficial da discriminação das mulheres e o marxismo seria um tanto reducionista e machista. Este essencialmente por reduzir o problema à questão de classes e por negar, inicialmente, uma luta autônoma das mulheres.

O papel do feminismo seria o de expor o funcionamento do patriarcado e as experiências de opressão em comum vividas pelas mulheres. A partir desse momento, iniciar-se-ia um processo de conscientização em que se perceberia que a opressão vivida não acontecia de forma individual e isolada, mas era uma manifestação opressiva que atingia a todas coletivamente. Socializando o conhecimento de que todas eram oprimidas, seria possível construir ferramentas de transformação do mundo, as quais permitiriam que todas as mulheres fossem livres.

Na foto, em destaque, Andrea Dworkin, uma das principais vozes do feminismo radical. Com o slogan “o pessoal é político”, as feministas radicais pretendiam não só ganhar o espaço público, mas também revolucionar o espaço privado. Questionavam a separação entre espaço público e privado, que até então encobria a dominação patriarcal e a opressão que aconteciam em âmbito doméstico. Um dos grandes feitos dessa corrente foi expor o problema da violência doméstica, questão até então negligenciada pelos grupos anteriores.
Na foto, em destaque, Andrea Dworkin, uma das principais vozes do feminismo radical. Com o slogan “o pessoal é político”, as feministas radicais pretendiam não só ganhar o espaço público, mas também revolucionar o espaço privado. Questionavam a separação entre espaço público e privado, que até então encobria a dominação patriarcal e a opressão que aconteciam em âmbito doméstico. Um dos grandes feitos dessa corrente foi expor o problema da violência doméstica, questão até então negligenciada pelos grupos anteriores.

***

Apesar de emergirem em diferentes momentos históricos, ainda hoje se pode encontrar manifestações inspiradas em todas as vertentes citadas.

É preciso esclarecer que a classificação feita dessa forma é uma opção. É possível encontrar diferenciações por critérios diversos e por meio de outras nomenclaturas. Também é importante frisar que as manifestações desses feminismos poucas vezes se apresentam de forma pura. Na maioria das vezes, seus elementos se misturam, pois cada uma das estratégias, de alguma forma, tende a contribuir em maior ou menor grau na luta das mulheres.

Por último, em relação às últimas décadas, destaco duas correntes de relevo que atualmente têm bastante espaço na luta política e na academia: o feminismo interseccional e o feminismo queer.

O feminismo interseccional acredita que as mulheres não são um grupo homogêneo e, por isso, são oprimidas em diferentes graus de intensidade. Surge da crítica das feministas negras, que acusavam as primeiras manifestações de simplificarem excessivamente a condição das mulheres, como se todas tivessem as mesmas vivências e o mesmo histórico social e econômico. Na escala de opressão, eram as mulheres pobres e negras as mais oprimidas, e o feminismo anterior parecia não prestar atenção nessas especificidades. Um exemplo de feminismo interseccional é o feminismo socialista, que acredita que a opressão das mulheres sofre influências principalmente de três sistemas de dominação-exploração: o capitalismo, o patriarcado e o racismo. Sendo assim, a forma de combate à desigualdade deveria combater essas diferentes instituições.

O feminismo queer aponta que a categoria “mulheres” é produzida e reprimida pelas mesmas estruturas de poder por meio das quais se busca emancipação. Ela expõe que a aceitação de um sistema binário de gêneros (masculino e feminino) implicitamente indica a relação com um sexo, o que ignoraria drag queens, travestis e transexuais, por exemplo, assim como todas as categorias que fugiriam dessa relação. A categoria gênero, por essa razão, seria opressiva por querer refletir apenas o sexo ou por ele ser restrita, e excluiria identidades que não se identificam com a dualidade apresentada. Seu foco de lutas é a subversão e o rompimento com as normas socialmente prescritas de comportamento sexual e/ou amoroso.

Viram? Não tem como não ser feminista. No final das contas o que se quer é a emancipação de todas/os. Independentemente da fundamentação escolhida, ser feminista é uma luta pela dignidade, pela liberdade, pela igualdade. Saia do armário e manifeste-se!

Para acompanhar nossas publicações, curta a página do Pandora Livre no Facebook.

mariana-nobrega

Mariana é doutoranda em ciências criminais e mestra em ciências jurídicas. Pesquisa sobre direitos humanos, teorias feministas e criminologia. Também é servidora pública e mais uma advogada de araque neste país de direitoloides.

Politicário

, , ,

Deixe um Comentário

Todos os comentários são de responsabilidade exclusiva dos/as leitores/as. Serão deletadas ofensas pessoais, preconceituosas ou que incitem o ódio e a violência.

Comente usando o Facebook

7 comentários

  1. Parabéns pela compilação de informações e, especialmente, por encerrar dizendo que essas vertentes são escolhas assim feitas para organizar as ideias, pois muitas das teorias expostas se fundem não necessariamente em categorias fechadas. Por exemplo, o marxismo, ainda que com críticas, também fez parte da Simone. Um feminismo anárquico, ainda que sem o uso desse termo, também faz um pouco parte do que defendem na teoria queer. Enfim, é uma grande e vasta colha de retalhos e o positivo do texto é que quem não estuda feminismo consiga tirar ao menos algumas noções do que se trata. Parabéns.

  2. O artigo é bastante superficial. Quem leu Shulamith Firestone, Sexual Politics, etc. Sabe que isso está totalmente longe da verdade. Existem trechos eugênicos aos borbulhões em diversos clássicos feministas. William Du Bois, pensador abolicionista negro americano, escreveu que as sufragettes estavam interessadas apenas no voto das mulheres, enquanto negros, segundo elas, “deveriam ser excluídos”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *