Onde estão os Charlies?

Foto: I. Prickett/ UNHCR (2011) | fotospublicas.com
Foto: I. Prickett/ UNHCR (2011) | fotospublicas.com

Vivemos, atualmente, a pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, segundo o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR). A maioria dos deslocados é de origem síria – são mais de 4 milhões refugiados em outros países, além de outros 7,6 milhões deslocados internamente. Embora representem a maior parte dos imigrantes que entraram na Europa no primeiro semestre de 2015, o destino da maioria dos sírios, ao contrário do que possa parecer, não é a Europa: a larga maioria tem se refugiado nos países vizinhos, como Turquia, Líbano, Jordânia, Egito e Iraque desde o início dos conflitos, em 2011. O êxodo sírio, porém, só ganhou a atenção mundial agora em 2015, quando os desesperados refugiados começaram a chegar aos milhares às portas da Europa.

Longe de despertar a solidariedade que desencadeou, em janeiro desse ano, milhares de “Je suis Charlie” por toda a Europa, as vítimas da crise migratória são um produto indesejado com o qual os europeus ainda lidam como questão de segurança, e não de política social.

Na semana passada, um caminhão frigorífico com 71 corpos, a maioria de refugiados sírios, foi encontrado na Áustria. O caminhão vinha da Hungria, que acelerou, em resposta, a instalação de uma cerca de 175 quilômetros na fronteira com a Sérvia. “Multiculturalismo significa coexistência do islã, religiões asiáticas e cristianismo. Faremos de tudo para poupar a Hungria disso. Recebemos investidores não-cristãos, artistas e cientistas, mas não queremos nos misturar em escala de massa”, declarou o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban.

Nem sempre, contudo, a Europa se quis tão distante do Oriente Médio. Na virada do século XX, a região onde hoje se localizam a Síria e países vizinhos foi alvo de cobiça dos países europeus, sobretudo após a descoberta de enormes reservas de petróleo.

Mapa: bbc.com.
Mapa: bbc.com.

Com a desintegração do Império Turco-Otomano em meio à Primeira Guerra Mundial, o Reino Unido e a França assinaram secretamente, em 1916, o Acordo Sykes-Picot, que previa a divisão da região em esferas de influência britânica e francesa.

As fronteiras desenhadas por Sykes-Picot, muitas das quais permanecem ainda hoje – como a divisa entre a Síria e o Iraque, precisamente onde atualmente o Estado Islâmico proclamou um califado – não consideraram diferenças entre os povos que historicamente habitavam a região e, por isso, são questionadas pelos grupos cuja identidade étnico-religiosa não as reconhece como tais. “Aqui não tem Sykes-Picot”, brada um dos jihadistas no documentário produzido pela Vice News, enquanto defende a instauração do Estado Islâmico, que desconhece as fronteiras político-administrativas da Síria e do Iraque.

Em razão do Sykes-Picot, a Síria permaneceu sob tutela francesa até 1946, quando obteve sua independência no esteio do processo de descolonização impulsionado pelo fim da Segunda Guerra Mundial.

A partir de então, o país viveu sob sucessivos governos instáveis até que o Partido Baarth, do grupo étnico-religioso dos alauítas, chegou ao poder em 1963 e nele se mantém desde então. Como muçulmanos xiitas, os alauítas são uma minoria que governa a maioria sunita (74%). Por isso, os sunitas tendem a nutrir simpatia pelos grupos rebeldes que lutam para derrubar Bashar Al-Assad, o presidente sírio, e estabelecer a sharia – a lei islâmica – no país.

Nesse sentido, atribuir ao Sykes-Picot a condição de grande responsável pelos conflitos que a região experimenta até hoje é superestimar seu papel. Mas o componente, sem dúvidas, agravou a delicada situação da área que, historicamente, é considerada um hotspot da geopolítica mundial.

As cicatrizes provocadas pela cisão operada por meio do Sykes-Picot, juntamente com a criação forçada de Israel, em 1948, a despeito da vigorosa oposição dos países da região, não sararam: é como a ferida aberta que começa a produzir metástases em outros lugares do mundo. Enquanto as consequências da guerra civil síria permaneciam circunscritas aos países da região – o Líbano, sozinho, abriga mais de um milhão de refugiados sírios, o que já representa quase um quarto da sua população local – , houve apenas a tardia intervenção estadunidense e uma ajuda incipiente da ONU – dos US$ 5 bilhões prometidos para o apelo humanitário, menos da metade foi recebida.

Foto: Forças de Segurança da Macedônia | fotospublicas.com
Foto: Forças de Segurança da Macedônia | fotospublicas.com

Agora que a questão ameaça a Europa, passa da hora de decidir uma postura que não seja apenas fechar as fronteiras ou negar socorro, como se não tivesse nada a ver com o quadro que se lhe apresentou.

A julgar pela conduta do presidente húngaro,  pouco do dito idealismo ocidental parece remanescer. Antes de esquecer Sykes-Picot, a memória recente parece indesejosa da lembrança dos discursos de Charles de Gaulle que, resistente à descolonização, chegou a proclamar que a França e suas colônias formariam um só país. Do contrário, universalismo pela metade é apenas discurso de dominador. Se a presença ocidental no Oriente Médio fosse assim desinteressada, teria chegado  a hora de fazer o que tanto se pretendeu, na cruzada civilizatória, ensinar aos demais povos, entre os quais estariam, em igual medida, os Charlies, Mohameds, Moammars, Ahmeds e todos(as) os(as) anônimos(as) vítimas do sonho europeu.

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camila-torres

Camila é advogada pública. Especialista em Direito Público, interessa-se por temas referentes à política nacional e internacional e questões socioambientais.

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