Constrangimentos do patriarcado

É bem verdade que os impactos do patriarcado divergem consideravelmente dependendo do lugar, da classe social e de outros fatores como raça, religião etc. No entanto, ainda que você viva no ambiente mais bacana, tolerante e respeitoso para o seu desenvolvimento pessoal, o mundo sempre faz questão de lhe mostrar que o espectro do patriarcado ainda ronda… e é constrangedor.

1. A rainha do lar

Não basta ser charmosa, culta, inteligente, estudante e profissional exemplar. Para mostrar o seu valor, e ganhar o título de “mulher completa”, você ainda tem de mostrar que é uma cozinheira de mão cheia, precisa lavar pratos como se fosse uma das coisas mais gostosas do mundo, varrer o chão com a maior desenvoltura e servir de garçonete nos eventos sociais enquanto os membros do sexo masculino jogam baralho e bebem whisky – ainda que você seja visita naquele evento, e eles estejam na própria casa.

Essa avaliação geralmente é feita por tios/tias, sogros/sogras, ou por gente amiga dos seus pais, que irão investigar se você teve uma boa “criação”. No momento em que você for fazer alguma tarefa doméstica, algumas olhadelas de avaliação serão jogadas para medir o seu estado de felicidade e boa vontade – para saber se você é uma mulher solícita e maternal -, bem como sua agilidade e habilidade: tem de descascar alho num piscar de olhos, varrer a casa que nem uma bailarina, cortar cebola com destreza e rapidez.

E parece que é nesses momentos de avaliação que dá um ziricutrico e você quebra um copo lavando a louça, erra no tempero da comida e derruba uma criança no chão. Aí, é o fim, minha gente, sua repcozinha fogoutação de boa mulher irá por água abaixo.

Ou, ainda, caso você faça corpo mole para fazer alguma dessas atividades: caras de reprovação, rabissacas, “tsc tsc, essas mulheres de hoje em dia…”. O seu irmãozinho, priminho ou coleguinha toma a mesma atitude, e “ah, não é coisa de homem mesmo”.

Ia ser tão bacana se todo mundo pudesse ajudar nesses coisas chatas da vida, né? No entanto, se o chuveiro quebra, cadê o “homem da casa” para
consertar? Parece que os homens de hoje em dia não estão muito desenrolados pra resolver problemas em aparelhos eletrônicos, instalação elétrica, que nem aqueles homens de antigamente. O passado é passado para os homens; já as mulheres, além de terem que dar conta das atribuições do presente, também têm que manter os vínculos com o passado.

2. A casamenteiragame over

Se você já está há algum tempo em um relacionamento, vão jurar que você já deve estar forçando a barra para engatar um casamento, mesmo que você não se importe com isso e viva recebendo declarações e propostas do seu companheiro. O casamento é visto como um ardil feminino, uma manipulação maquiavélica feita pelas mulheres que inebria os homens a ponto de fazer com que eles aceitem benevolentemente largar sua vida de liberdade e júbilo. Vão dizer na sua cara que você, pobre moça, deve estar muito infeliz, porque ainda não teve sua plenitude alcançada por meio do contrato de casamento. Vão, de brincadeirinha, solicitar ao seu companheiro que, num ato de compaixão em relação a tamanha vida miserável, resolva ensandecidamente abdicar de seus privilégios para dar sentido e satisfação à sua vida.

3. A interesseira

“Mulher não precisa estudar, basta encontrar um homem rico para casar”. Bacana demais viver da riqueza dos outros, né? Incrível que gente desinteressante tem sempre essa teoria espertíssima e divertidíssima para soltar por aí. Falam que mulher só pensa em dinheiro. Bem, meu querido, se você não possui nenhuma destas características, tais como: beleza, charme, inteligência, bom papo, bom gosto, bom humor, bom caráter, infelizmente só o que lhe sobra é começar a ganhar dinheiro para atrair gente interesseira. Pessoas legais não têm interesse em gente tão desprovida. A dica é comprar o carro da moda, andar com roupas de marca caras (e que mostrem esse atributo para o público), frequentar lugares “VIPs” e a isca estará perfeita.

4. A descartável

Quem nunca ouviu que mulher depois dos 25 anos “passa do ponto”? Infelizmente já tive oportunidade de escutar isso mais de uma vez. Ou, “se minha mulher não emagrecer logo depois de ter filho, eu a largarei”. Já escutei essa também algumas vezes. Bacana saber que depois dos 25 anos, eu viro um lixo humano até o momento da minha morte.

Existe um ódio generalizado a mulheres gordas e/ou velhas. Basta lembrar o quanto Marília Gabriela foi esculachada na época que namorava com Reynaldo Gianecchini e como as pessoas têm uma implicância absurda, e sem um fundamento preciso, com Preta Gil. Ficando velha e/ou gorda, a gente tem que passar a vida se conformando às expectativas alheias, de ser mãe, mulher casada (com homem mais velho, claro), discreta e doce.

Solução para não ter estresse: morra, antes de envelhecer. Sugeriria os 27 anos, porque aí você se junta ao hall da fama, ao lado de celebridades como Janis Joplin, Kurt Cobain e Amy Winehouse.

*Publicado originalmente no yonocreopero.blogspot.com.br, em 09 de maio de 2014.

 

mariana-nobrega

Mariana é doutoranda em ciências criminais e mestra em ciências jurídicas. Pesquisa sobre direitos humanos, teorias feministas e criminologia. Também é servidora pública e mais uma advogada de araque neste país de direitoloides.

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