A dura experiência de se olhar no espelho

Cena do filme 'Que horas ela volta?'. Divulgação.
Cena do filme ‘Que horas ela volta?’. Divulgação.

“Mas lá em casa era diferente”. Essa frase saiu de pessoas bem próximas durante conversas sobre o filme Que horas ela volta?, oficialmente escolhido para representar o Brasil na corrida ao Oscar do próximo ano. Que horas ela volta? está provocando um intenso debate sobre o legado social de um país que durante séculos aceitou a escravidão e sobre a naturalização de assimetrias sociais disfarçadas sob o manto da relação “familiar” estabelecida entre empregados domésticos e seus respectivos patrões.

Para uma descrição mais detalhada do filme, remeto o (a) leitor (a) à ótima resenha de Mariana Nóbrega, publicada aqui mesmo no Pandora Livre. Em termos gerais, o longa centra-se na história de Val, personagem de Regina Casé, uma ‘retirante’ de Recife que foi para São Paulo trabalhar em um lar no Morumbi, bairro de classe média alta da zona sul da cidade. Val criou o filho do casal, Fabinho, mas para isso teve de deixar para trás sua própria filha, Jéssica. Esta, após dez anos intrigada (como se diz no Nordeste) com a mãe, resolve, do nada, entrar em contato porque quer ir a São Paulo tentar o vestibular na FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. A chegada de Jéssica, uma adolescente questionadora e desacostumada às regras que regem a relação entre um empregado doméstico e os donos da casa, provoca em Val e nos demais personagens uma série de reações que dão a tônica do filme.

No contexto de uma conversa sobre o filme, eu interpreto a frase “mas lá em casa não era assim” como uma tentativa mais ou menos consciente de se distanciar da realidade que ele escancara.

Quando alguém identifica a problemática central do filme e o aplaude pela sua genialidade, mas depois emenda que, no seu caso, aquilo não se aplica, porque os empregados domésticos sentavam à mesa junto com a família, ou tinham carteira assinada, ou que a eles era garantida alguma benesse (direito?) negada à personagem de Regina Casé, é sinal de que há uma convicção de que toda aquela situação de injustiça e opressão diz respeito aos outros, e não a si próprio.

Talvez pelo fato de que a dona da casa – a Dona Bárbara – acaba se revelando uma ‘megera’ ao longo da trama, e ninguém gosta de ser o vilão na ‘vida real’, ou porque o ‘tapa na cara’ doeu, fato é que alguns, ainda que sem má-fé, estão procurando se excetuar daquela – da nossa onipresente, irrenunciável – realidade.

Mas por mais que a experiência pessoal não reproduza exatamente o que se vê no filme, a questão central de Que horas ela volta? não é a justiça e a ética no universo do “micro”, do doméstico. Ele trata muito mais das práticas, veladas ou explícitas, que fazem com que o Brasil ocupe a 20ª posição de país com maior desigualdade no mundo, medida pelo coeficiente de Gini.

É sobre um país em que os papeis sociais são tão bem definidos e delimitados que fazem com que as experiências de vida, as perspectivas e as circunstâncias existenciais de Val e Dona Bárbara não se cruzem em absolutamente nenhum ponto exceto nos espaços para “cá” da cozinha. Da mesma maneira, é sobre uma nova geração de brasileiros como Jéssica, a filha de Val que, mesmo se um dia formada na USP e bem-sucedida, também nunca pertencerá ao grupo social de Dona Bárbara.

E é também sobre a realidade de qualquer empregado doméstico no Brasil que, por mais que coma junto com seus patrões e seja considerado como “da família”, também jamais irá ser “um deles”. É esse abismo social que a relação de trabalho doméstica esconde e que o filme deixa tão evidente. É ingênuo achar que tratar a empregada “direitinho” (fale essa palavra com sotaque nordestino) é estar contribuindo com sua parte pelo nosso “belo quadro social”, parafraseando “Ouro de Tolo”, de Raul Seixas.

Por todas as reações que tem causado – raiva, vergonha, desconforto, sentimento de culpa, necessidade de explicação etc. – Que horas ela volta? parece ter sido capaz de funcionar como um grande espelho no qual o telespectador fica de frente por quase duas horas. Por isso que não posso concordar com análises com a do Deni Rubbo, publicada no Outras Palavras, que julgou o filme uma “arte inofensiva”. Sua crítica centra-se, essencialmente, no modo como a burguesia brasileira foi retratada. Para ele, o filme deveria ter explorado mais as contradições, inclusive psicológicas, da classe burguesa, e ele chega ao ponto de dizer que, na prática, nenhuma patroa trata sua empregada como dona Bárbara trata Val. Com exceção da negação da existência de “Donas Bárbaras”, as suas observações fazem um pouco de sentido, mas estão longe de fazer de Que horas ela volta? uma obra inofensiva.

A princípio, é verdade que a tríade “homem maníaco-depressivo rico de berço + perua workaholic + adolescente gente boa, mas alienado” é um tanto quanto cliché. Mas outras obras já exploraram com maestria o perfil da classe média emergente, a burguesia de fora do eixo Rio-São Paulo e a complexidade da nova estratificação social brasileira dos últimos 10 anos, como O Som ao Redor. Se Que horas ela volta? tivesse optado por inserir esse ingrediente no roteiro teria competido com a sublime história da personagem central, Val, tornando o filme menos encantador e, portanto, menos capaz de dialogar com seu público.

Queiram seus críticos ou não, Que horas ela volta? é um filme comedido no “denuncismo social”, tanto que, do início ao final, a relação entre a família e a empregada permaneceu “cordial”, e o desfecho foi extremamente feliz ao não optar nem pelo conflito exposto a la luta de classes nem por uma temerária tentativa de conciliação das diferenças (ainda) insuperáveis.

Isso é algo positivo, porque cinema que se entrega a esse tipo de viés “indignado” acaba se empobrecendo, vide o último filme de Costa-Gravas sobre a ganância de executivos do mercado financeiro e a crise financeira global, O Capital. Durante a sessão, o sentimento é de incômodo e mesmo de revolta, mas duvido que ele tenha sido capaz de fazer o espectador pensar sobre sua temática um segundo após o primeiro pedaço de pizza pós-sessão.

Também discordo das análises que veem na crítica à “família burguesa” o eixo central de Que horas ela volta?. Em que pese a importância do pano de fundo social, o brilhantismo do filme consiste em ter estabelecido um enlace singelo entre o drama das três mulheres sob o aspecto de suas difíceis escolhas, suas prioridades, seus medos e seus ressentimentos. As três personagens femininas principais abdicaram de cuidar de seus próprios filhos para conquistar outros objetivos, diferentes um bocado entre si, obviamente. Mas, ressalte-se, é nesse, e somente nesse ponto, que a história das três mulheres se cruzam. Muito mais do que por aquilo que possuem em comum, Val, Bárbara e Jéssica são pessoas “unidas” pelas suas diferenças.

Mais do que um retrato supostamente imperfeito da classe burguesa, Que horas ela volta? fala sobre cada um de nós, e por isso eu entendo a pressa que temos em tirar aquele espelho de nossa frente e de contemporizar o “incontemporizável”.

Há uma segunda questão central no filme, esta sim de nítido cunho social, que algumas análises buscaram relacionar com o cenário político mais amplo, que hoje é de incertezas, e que diz respeito às possibilidades de mobilidade social menos restritas no Brasil atual e os desafios que ainda permanecem.

Com o avanço (ainda que insuficiente) da questão social da última década, Jéssica tem a sorte de viver em um país em que ela, além de não precisar ser uma Val, tem uma chance bem maior de ter o padrão de vida material da Dona Bárbara. Mas, para além da necessária consolidação dos avanços, Que horas ela volta? mostra que Jéssica vai ter de conviver por muito tempo com aqueles que acham que o seu lugar é, como disse Dona Bárbara, “da porta da sala para lá”. Essa é a mentalidade que o filme buscou, sutilmente, desconstruir.

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Caio de Souza Borges é doutorando na Faculdade de Direito da USP e mestre em direito e desenvolvimento pela Direito GV SP. É advogado do terceiro setor em São Paulo – SP.

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