A emergente juventude fundamentalista

Em abril deste ano, a rede terrorista jovem vinculada ao Al-Qaeda, Al-Shabaab (“A juventude”), igualmente conhecida como Harakat al-Shabab al-Mujahideen (“Movimento do Jovem Guerreiro“), realizou um ataque a uma universidade no Quênia, deixando 147 mortos e 79 feridos.

A agressão foi repudiada no mundo inteiro, repercutindo em redes sociais e assombrando fortemente o Ocidente, fiel propagador do discurso dos Direitos Humanos. Estudantes que sobreviveram ao ataque relataram que, ao percorrer os dormitórios empunhando metralhadoras, os jovens jihadistas perguntavam se os universitários eram cristãos ou muçulmanos e, sendo estes cristãos, poderiam ser mortos na hora.

Acontecimentos como este notabilizam uma assombrosa face da humanidade: sua dificuldade em conviver com o plural, com o diferente, com o outro. E a questão da alteridade aí é tão forte que o Ocidente parece insistir em disseminar a ideia de que o fundamentalismo é coisa exclusivamente pertencente à cultura do Oriente Médio e à sua construção religiosa com base islâmica. Ou seja, a dificuldade de lidar com o outro é uma dificuldade do outro, e não minha. É como se deste lado do globo, nossa ética humanística e cristã se direcionasse para uma maior tolerância e respeito às liberdades, de tão civilizados progressistas que somos.

Imagem: Reprodução/ Rede Record
Cartazes colados em postes de Niterói fazem menção à Ku Klux Xlan – Imagem: Reprodução/ Rede Record

A história, no entanto, comprova exatamente o contrário: o fundamentalismo não é prerrogativa do mundo islâmico, tampouco coisa distante do mundo ocidental. Basta lembrarmos do clã protestante Ku Klux Klan (KKK), que assombrou a sociedade norte-americana propagando o ódio e encampando perseguições contra negros, prostitutas e delinquentes. E não é nem preciso irmos tão longe no tempo para nos depararmos com isso. Ideologias herdeiras do KKK têm influenciado grupos fundamentalistas em várias partes do mundo, inclusive aqui no Brasil (nesta semana, por exemplo, foram encontrados cerca de 20 cartazes espalhados pelas ruas de Niterói, onde um grupo ligado ao KKK ameaçava judeus, muçulmanos, pedófilos e “comunistas”).

Mas aqui no Brasil, por incrível que pareça, essas ameaças não são nem de longe o pior, diante da intolerância religiosa que cada vez mais tem partido de determinados grupos cristãos.

Gladiadores do Altar - Imagem: Reprodução/Instagram
Gladiadores do Altar –
Imagem: Reprodução/Instagram

Em Belo Horizonte, em 2014, por exemplo, um jovem homossexual de 19 anos foi sequestrado em uma kombi, sofreu tortura e teve sua barba e sobrancelhas queimadas, tendo sido abandonado desfalecido e com uma carta no bolso em que, dentre outras coisas, continha que: “este foi o primeiro da cidade a passar pela purificação”. Meses antes, no Rio de Janeiro, 14 jovens de classe média haviam sido presos acusados de espancar homossexuais no aterro do Flamengo, com a intenção de “limpar” a região. Já no Distrito Federal, há alguns dias, dois terreiros foram incendiados de modo criminoso, ficando completamente destruídos. E, em meio a estes acontecimentos quase que cotidianos, foi criado em 2014 o grupo intitulado de Gladiadores do Altar, jovens vinculados à Força Jovem Universal, da Igreja Universal do Reino de Deus, com a finalidade de preparar rapazes de diversas idades para “servir a Deus”.

Há algo de comum nisso aí?

Certamente sim. Evidencia-se com muita rapidez o que algumas pessoas vêm chamando de Fundamentalismo Cristão, que aparentemente está muito mais próximo do nosso cotidiano do que imaginamos. Ele está bem aí, sentado ao seu lado no banco do ônibus, ou tomando café na copa do escritório em que você trabalha, ou assistindo à mesma aula na faculdade em que você estuda. E não se engane, não, o porta-voz do fundamentalismo não é velho, barbudo, chato, e nem carrega uma Bíblia desgastada embaixo do braço. Ele é cada vez mais jovem e bem articulado socialmente.

Nesse sentido, desde a construção de uma leitura ideal dos textos bíblicos que não permite uma análise interpretativa, passando pela criação de determinados núcleos religiosos agregadores da juventude (compreendidos como seitas por alguns), até atingir as mais altas cúpulas partidárias do espaço político (vide o aumento do número de partidos que têm como base política os dogmas religiosos e da força que tem ganhado a bancada evangélica no Congresso Nacional, que agrega, somente na Câmara, 69 deputados), o ideário fundamentalista passa cada vez mais a tomar a dianteira nos debates que envolvem temas como: concessão de direitos a grupos LGBTs (criminalização da homofobia, liberdade de gênero, igualdade), liberdade religiosa (especialmente quando o debate envolve as religiões de matriz africana), papel das mulheres na sociedade (vestimenta, comportamento social, sujeição aos maridos), reivindicações de grupos feministas (aborto, liberdade sexual), superação da família tradicional (união homoafetiva, novas configurações do núcleo familiar), dentre outras questões.

E esses debates embasados na dogmática religiosa (que não se restringem de forma alguma ao âmbito político) têm ganhado cada vez mais espaço nas rodas de conversa das escolas, universidades, igrejas etc, pautados, em sua maioria, por jovens disciplinadamente entendedores da palavra divina e radicalmente doutrinados a não interpretá-la à luz da contemporaneidade e da dialética da vida humana.

Uma das principais características desse fenômeno da proliferação dos discursos fundamentalistas em meio às juventudes é o fato de que tais discursos encontram-se na contramão da promoção e defesa do que se entende como dignidade humana. Em um país como o Brasil, por exemplo, fortemente herdeiro de tradições coloniais, patriarcais, escravocratas e antidemocráticas, a juventude, em certos contextos, parece não conseguir reavivar a memória histórica que nos permite analisar com um certo luto crítico os nossos momentos mais obscuros de ausência de direitos, igualdade e liberdades públicas.

Soma-se a isso o fato de que a euforia peculiar à juventude, aliada à necessidade psíquica de sentir-se parte de algo (um grupo, um núcleo de aceitação), impulsiona os jovens a enfrentarem verdadeiras batalhas cotidianas em nome de seu grupo, não lhes constrangendo os freios morais, ou não lhes intimidando as relações sociais que envolvem hierarquia, respeito etc.

Ainda, com a proliferação das redes sociais no mundo virtual, o distanciamento entre emissor e receptor das mensagens torna a disseminação de qualquer tipo de ideia ainda mais fácil e audaciosa. Afinal de contas, não há muito o que se temer quando estamos diante de uma tela e um teclado. E o privado invade o público de maneira assustadora.

Nesse contexto, há quem argumente em favor da liberdade de expressão e manifestação de opiniões, o que de fato se configura como um direito conquistado a duras penas por aqui. Mas o maior detalhe desse tipo de discurso é o fato de ele ser baseado em dogmas, que se caracterizam exatamente por sua qualidade de verdades inquestionáveis, incontestáveis e absolutas. É muito frequente que, nesses discursos, o locutor considere-se dono da verdade e da compreensão do universo, de modo que o outro jamais conseguirá atingir a amplitude da captação metafísica do mundo na mesma proporção com a qual tais profetas iluminados pela graça divina das sete tábuas o fazem.

A ideia de fundamentalismo, na realidade, gira exatamente em todo desse debate sobre a inquestionabilidade dos dogmas. Ora, se essa verdade é a absoluta e não há nada que a relativize, não há que haver diálogo. Ou se lê o livro “Universo em Desencanto” (como clamava o velho Tim Maia), tomando tais dogmas como verdades; ou se combate o inimigo diretamente, seja através de discursos (algumas vezes de ódio), seja através da violência física direta (em pessoas que não compartilham dos dogmas, em imagens cultuadas, ou mesmo em cultos religiosos de grupos não considerados legítimos).

Ainda há que se observar que a proliferação de determinadas vertentes neopentecostais do cristianismo no Brasil tem trazido à tona novas ideologias que dialogam com o mercado e com o capitalismo. É a ideologia da prosperidade, em que a pobreza deve ser encarada como uma ação do demônio na vida das pessoas, e que se deve desconsiderar os meios para conseguir os fins (o fim seria a prosperidade econômica em si). Esse é também um discurso que vem construindo o imaginário da juventude no sentido de esta se afastar de alguns valores éticos construídos conjuntamente a uma ideia de dignidade. Mas esse é assunto para um outro post.

Por óbvio, o debate que aqui se apresenta não se trata de uma generalidade, tanto do ponto de vista das religiões cristãs (extremamente variadas e com uma grande relação de complexidade entre si) quanto da juventude (que, exercendo religião ou não, pode refletir criticamente sobre o que lhe circunda). Sem dúvida alguma, há que se observar que discursos fundamentalistas em um contexto religioso não se confundem com os discursos que propagam o amor e a igualdade, como o fazem as congregações religiosas comprometidas com a tolerância e a inclusão. Necessariamente, em um Estado Laico, todas as manifestações religiosas (ou a ausência delas) devem ser garantidas.

É nesse sentido que a juventude, sempre considerada com um ar de esperança revolucionária e de renovação do futuro próximo, deve estar sempre alerta ao monitoramento dessas liberdades, e jamais posicionar-se em favor de discursos fundamentalistas, que pautam tanto a exclusão da racionalidade crítica, quanto a exclusão do outro enquanto ser humano discordante.

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Clarissa é professora e doutoranda na área de direitos humanos e desenvolvimento. Pesquisa feminismo, migrações e relações de trabalho. Se calhar, está disposta a largar a academia e viver de sua arte.

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