Somos todos/as burocratas

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Foto: Cena do filme “De repente 30”.

Elisa gostava de ler e escrever. Português e Literatura eram suas matérias favoritas na escola. Assistiu “De repente 30” e percebeu que ser jornalista era o que queria fazer da vida. Sonhava em sentar numa sala de reunião colorida, com uma mesa comprida cheia de outros colegas descolados, com cabelos em cortes irregulares, meias divertidas e muita criatividade na cabeça. Escreveria notícias e reportagens sobre política nacional e internacional, o homem e a mulher contemporânea, o novo show da banda mais badalada do momento e o mais polêmico escritor da vez.

Elias era apaixonado por História. Antes mesmo da faculdade, já havia lido a coleção das Eras de Hobsbawm. Sonhava em ser um grande pesquisador, descobrindo como as heranças do nosso passado influenciam o presente e o futuro. Era mais um curioso pelas transformações ocorridas no século XX: Revolução Russa, Segunda Guerra Mundial e Ditaduras Militares na América Latina. Sonhava em passar o resto da vida lendo e ensinando a outras pessoas a importância desses momentos históricos e suas repercussões futuras.

Chegada a fase de tomar decisões profissionais, era ano de inscrição no vestibular. Nossos protagonistas, no entanto, foram sugados pelo ralo do pragmatismo e caíram na vala comum de grande parte dos inclinados às Ciências Humanas no Brasil: resolveram cursar Direito.

A decisão parecia difícil, mas não foi. Elisa descobriu que não existia muito glamour na profissão de jornalista na sua cidade. Com uma média salarial de 2000 reais – com muitos veículos pagando até menos –, Elisa lembrou que além de ter o sonho de ser jornalista, também tinha o sonho de morar numa casa espaçosa, viajar o mundo e dar uma boa educação para os seus futuros filhos. Talvez seguir a aspiração profissional pudesse aniquilar algumas outras pretensões na sua vida.

Elias percebeu que seu mercado era muito restrito. O ápice de sua carreira seria um cargo de professor na Universidade, mas não parecia muito animador, em razão das manifestações que constantemente assistia na televisão reivindicando melhores condições e melhores salários. Alternativas a isso seriam trabalhar para o Governo do Estado ou para o Município, em que os professores pareciam ainda mais maltratados, ou trabalhar numa escola particular, ministrando aulas a umas dez turmas, cheias de pestinhas hostis.

Alguém sabiamente falou: Direito é o curso do presente e do futuro. São milhares de vagas para concursos todas as semanas. Os altos cargos podem levar a 30 mil, 40 mil reais de remuneração. No baixo escalão, cargos no Judiciário ainda têm em média os salários mais gordos do funcionalismo público. Tudo isso com estabilidade, jornadas de trabalho bem delimitadas, férias e mais direitos do que o restante dos trabalhadores, especialmente se você se inserir em cargos da magistratura ou do Ministério Público.

Em 2010, já eram mais de 1.240 cursos de Direito no Brasil, mais do que a soma de todas as faculdades de Direito em todo o resto do mundo, que somavam 1.110 cursos. Aqui, uma infinidade de pessoas lota os bancos desses cursos, em busca do emprego do bem-estar. O mercado entendeu bem a onda. Um curso muito lucrativo: bastam salas, professores e uma biblioteca, que nem precisa ser essas coisas todas. Investimento garantido para um curso com pouquíssima desistência. As festas de formatura são lotadas, com toda a família cheia de expectativa para o novo “Doutor” emergente.

Foto: Shutterstock.
Foto: Shutterstock.

São milhares e milhares de jovens, agora concurseiros, que anseiam se dedicar à burocracia estatal. Milhares de possíveis artistas, jornalistas, publicitários, economistas, historiadores, geógrafos, psicólogos que dão adeus aos seus sonhos profissionais, porque não querem arriscar enfrentar a vida sacrificante, de precarização, instabilidade e desvalorização salarial do mercado privado.

Há quem siga o sonho profissional, fora do direitoloidismo, e também se arrependa. Jornadas de trabalho abusivas e salários que não correspondem ao esforço tornam o concurso público o refúgio dos insatisfeitos. “Para tudo, que eu vou estudar. O que são alguns anos de martírio perto de uma vida toda?”.

Os donos de cursinho agradecem. E aí é que não só bacharéis de Humanas, mas de todas as outras áreas, optam por deixar de lado a sua formação, para sentar atrás de uma mesa, redigir, carimbar e rubricar. Quando otimistas, tentam se candidatar aos concursos de áreas específicas como Biologia, que “esbanjam” vagas, com algo girando em torno de três cargos (se muito).

Se o curso for fora do Judiciário, muito provavelmente não pagará tão bem. No entanto, ainda assim, cargos de nível médio, por exemplo, privilegiam quem fez Direito. O grosso dos editais são matérias ligadas ao curso, mesmo que o cargo pretendido especificamente nunca vá colocar em prática esses conhecimentos. Noções básicas de Direito Constitucional e Administrativo seriam suficientes para suprir a demanda da função, mas são exigidos conhecimentos muito específicos que quem fez uma faculdade nessa área tem muito mais facilidade de suprir.

Quem não se contenta em não poder alcançar o topo do funcionalismo, ainda que já servidor público, muitas vezes sente a necessidade de ingressar no Direito, porque, como já disse, os salários mais altos geralmente são restritos a bacharéis na área. Se não houver exigência de formação específica, muito provavelmente o edital vai exigir um conhecimento jurídico muito profundo, o que privilegia quem já cursou a faculdade. Por isso, muitas vezes o sonho de ser jurista nasce, mais por pragmatismo do que por aptidão, nos já servidores que estão em níveis mais baixos.

Não posso julgar, até porque quem vos fala caiu nessa armadilha também. Só sei que enquanto o mercado privado desvalorizar da maneira que desvaloriza o trabalhador, e enquanto os outros cargos públicos (professores, profissionais de saúde, assessores de imprensa, policiais, biólogos, engenheiros e ambientalistas) não tiverem o mesmo tratamento que os servidores do Judiciário, o Brasil será um país de cidadãos e cidadãs monotemáticos, desinteressantes e, para o bom capitalista, um país menos produtivo também.

Tem quem requeira ainda mais precarização do trabalho no mercado privado. Enquanto isso, os servidores do Judiciário reclamam o aumento dos seus “baixos” salários. As castas permanecem e *POP* mais uma faculdade de Direito brota na sua esquina.

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mariana-nobrega

Mariana é doutoranda em ciências criminais e mestra em ciências jurídicas. Pesquisa sobre direitos humanos, teorias feministas e criminologia. Também é servidora pública e mais uma advogada de araque neste país de direitoloides.

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