Francisco contra a corrente do ódio

Foto: Eduardo Santillán / Presidencia de la República (Equador) | fotospublicas.com
Foto: Eduardo Santillán / Presidencia de la República (Equador) | fotospublicas.com.

No filme Incêndios, do canadense Denis Villeneuve, a personagem Narwal Marwan a certa altura diz a seus filhos: “sua história começa com uma grande promessa: a de romper a corrente do ódio. Graças a vocês, fui capaz de cumprir essa promessa. A corrente foi rompida”. Algoz e vítima das mais atrozes barbáries da guerra, a personagem introduz a verdade como uma ferramenta para a reconciliação. Como conta o filme, as cadeias de ódio que atravessam gerações são movidas pelo ressentimento e pela vingança: para sará-las, é preciso não ter medo da verdade e do perdão.

Na vida real, o papa Francisco parece um desses seres empenhados em promover a reconciliação entre povos. Depois de atuar pela reaproximação entre EUA e Cuba, o papa participou ativamente das negociações que resultaram na celebração de um acordo entre a Colômbia e as FARC, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Na passagem por Havana, o papa comemorou: “Somos testemunhas de um acontecimento que nos enche de esperança: o processo de normalização das relações entre os dois países, depois de anos de distanciamento. É um processo, um sinal da vitória da cultura do encontro, do diálogo”.

Papa Francisco durante a missa em Havana, Cuba. Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate fotospublicas.com.
Papa Francisco durante a missa em Havana, Cuba. Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate fotospublicas.com.

Primeiro pontífice a participar de uma Assembleia Geral da ONU*, Francisco reivindicou a todos os países, “sem exceção”, uma participação real e equitativa nas decisões em órgãos como o Conselho de Segurança da ONU e os organismos financeiros. No discurso, o papa jesuíta declarou: “O caráter dramático de toda esta situação de exclusão e desigualdade leva-me, juntamente com todo o povo cristão e muitos outros, a tomar consciência também da minha grave responsabilidade a este respeito, pelo que levanto a minha voz, em conjunto com a de todos aqueles que aspiram por soluções urgentes e eficazes”. E emendou: “os mais pobres são os que sofrem mais por três motivos: são descartados pela sociedade, vivem de desperdícios e sofrem injustamente com as consequências do mau uso do ambiente. Essa é a cultura do descarte, tão difundida atualmente”.

Sem receio de chamar as coisas pelo seu nome, Francisco tem sido cada vez mais incisivo em seus discursos. Ao comentar sobre a crise de refugiados na Europa e o  muro construído pela Hungria para deter a enchente de imigrantes não-cristãos, afirmou: “Sabemos o que acontece a todos os muros, a todos: todos os muros caem. Hoje, amanhã, daqui a cem anos, vão cair. Os muros nunca são soluções; as pontes são, sempre”.

Acusado de comunista, o papa, com bom humor, responde que os comunistas é que roubaram a bandeira cristã: os pobres estão, desde sempre, no centro do Evangelho.

Berço da Teologia da Libertação e uma das regiões com maior concentração de católicos do mundo, a América Latina tem confiado ao papa argentino a condição de fiador nos compromissos de superação de antigas rusgas: além da mediação entre EUA e Cuba e entre a Colômbia e as FARC, a Bolívia também pleiteou a mediação papal em sua demanda junto ao Chile em busca de um acesso soberano ao mar. Por causa da questão mal resolvida, as relações diplomáticas entre Chile e Bolívia estão rompidas desde 1978, constituindo um dos gargalos à integração latino-americana.

Mario Bergoglio – seu nome de nascimento – não é o primeiro papa a proferir discursos pela paz, mas certamente é o primeiro, em muitos anos, a caminhar nesse campo para além da mera retórica, revolucionando a diplomacia papal.

No entanto, o avanço é medido e, por vezes, a pressa em transformar às vezes é refreada até encontrar espaço para seguir. Francisco, por ora, evita tratar publicamente de temas tabu, como o aborto e a homossexualidade, enquanto a Cúria Romana, conhecida por seu conservadorismo irretorquível, não se posiciona sobre as reformas que propôs ao colegiado. Além disso, deixou de se encontrar com o Dalai Lama para evitar tensionamento com Xi Jinping, presidente da China. Por outro lado, o papa não economiza críticas ao “colonialismo ideológico” e ao capitalismo excludente, o qual chamou de “ditadura sutil“.

Primeiro papa originário do continente americano em uma entidade historicamente militante do eurocentrismo, Bergoglio fala a mesma língua – literalmente – da maior parte de seus conterrâneos latinos e não cai na anedota europeia de que o subdesenvolvimento decorre de um mero atraso histórico. “Colocar a periferia em função do centro lhe nega direito a um desenvolvimento integral. Isso é iniquidade, e a iniquidade gera tal violência que não haverá recursos policiais, militares ou de inteligência capazes de deter”, disse aos movimentos populares durante a visita a Bolívia.

Nem por isso, contudo, a acidez de seus discursos redunda em estímulo ao ressentimento: a verdade amarga, para o papa, parece fazer parte do processo de repactuação e cura. É preciso conhecê-la para, sem subestimar as mágoas, superar as desavenças e promover a conciliação. Essa prática, na verdade, não é de todo estranha à doutrina católica, para a qual o sacramento da confissão (a verdade) e o genuíno arrependimento (a reconciliação) são condições para a cura e libertação espiritual. Mas o papa não se dirige apenas aos católicos, tampouco aos cristãos. O apelo à cultura do diálogo é dirigido a toda a humanidade.

Em menor escala, uma fórmula parecida já se mostrou bem-sucedida quando aplicada ao plano interno. Os trabalhos da Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul pós-apartheid, guiada por um outro líder cristão, o arcebispo anglicano e Nobel da Paz Desmond Tutu, são mundialmente conhecidos como um exemplo de reconciliação entre povos historicamente fragmentados. O engajamento da comunidade em sua própria reconciliação passou pela investigação das consequências humanas do conflito, seguida da possibilidade de reparação e perdão entre algoz e vítima. Tutu era partidário da ideia de que somente a lembrança, e não o esquecimento, poderia conduzir à superação dos traumas advindos dos anos de intolerância.

Evo Morales entrega ao papa Francisco um exemplar de El Libro del Mar. Foto: Jose LIrauze/ ABI | fotospublicas.com
Evo Morales entrega ao papa Francisco um exemplar de El Libro del Mar. Foto: Jose LIrauze/ ABI | fotospublicas.com.

Na recente visita do papa à Bolívia, além do polêmico crucifixo, Evo Morales o presenteou com um exemplar de El Libro del Mar (“O Livro do Mar”), o documento editado pelo governo que resgata a memória boliviana sobre as causas e consequências da Guerra do Pacífico (1879-1883), na qual o Chile invadiu a Bolívia e lhe subtraiu os 400 km de litoral, deixando o país andino sem acesso ao mar. Em resposta ao Libro del Mar, o governo chileno publicou Mito y realidad, no qual narra sua versão sobre os fatos, inclusive quanto ao recuo negociado de suas reivindicações sobre a Patagônia para assegurar que a Argentina não ingressasse no conflito.

Em inadvertida coincidência, a frase inscrita no Estádio Nacional do Chile em homenagem às vítimas do Golpe de 1973, no qual Augusto Pinochet derrubou Salvador Allende, inspira o mesmo propósito do Libro del Mar dos bolivianos: “un pueblo sin memoria es un pueblo sin futuro” (“um povo sem memória é um povo sem futuro”). Como no filme Incêndios, ecoa a mesma lição: conciliação não significa esquecimento, mas é um passo fundamental para a resiliência. Da lição à prática, quem diria, um papa argentino pode ser o caminho para a redenção.

Foto: Daniel Watanabe
Un pueblo sin memoria es un pueblo sin futuro“: inscrição no Estádio Nacional do Chile em homenagem às vítimas do golpe de 1973. Foto: Daniel Watanabe.

 

*Embora o papa seja considerado Chefe de Estado da Cidade do Vaticano, a Santa Sé, que representa a cidade-Estado externamente, não é membro da ONU, atuando apenas como Estado observador.

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camila-torres

Camila é advogada pública. Especialista em Direito Público, interessa-se por temas referentes à política nacional e internacional e questões socioambientais.

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