Afeganistão, a tragédia anunciada

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Hospital humanitário da organização Médicos Sem Fronteiras é bombardeado no Afeganistão. Foto: MSF | fotospublicas.com.

Na semana passada, a notícia de que os EUA bombardearam um hospital da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Kunduz, no Afeganistão, estarreceu o mundo e nos lembrou que, depois de vários anúncios de retiradas das tropas americanas, quase quinze anos depois de seu início, a guerra mais longa travada pelos EUA ainda parece longe do fim.

Orquestrada e executada poucos meses após os ataques de 11 de setembro de 2001, a invasão americana no Afeganistão, intitulada Operação Liberdade Duradoura, marcou o início da guerra ao terrorismo e destinava-se a derrubar o regime talibã, encontrar Osama bin Laden e destruir a organização terrorista Al-Qaeda.

Naquele contexto, parecíamos viver o triunfo da teoria do choque de civilizações sustentada pelo cientista político Samuel Huntington, que dividiu e classificou as principais civilizações do mundo de acordo com suas identidades culturais e religiosas. Para Huntington, o choque entre essas civilizações seria a principal fonte de conflito no mundo pós-Guerra Fria. “As distinções mais importantes entre os povos não são ideológicas, políticas ou econômicas. Elas são culturais”, ensinava o professor da Universidade de Harvard. Huntington preconizava a necessidade de o Ocidente impedir a aliança da “civilização islâmica” com a “civilização sínica” (chinesa), a fim de evitar a perda de controle sobre a Eurásia, a área pivô (ou heartland) da geopolítica mundial.

O presidente afegão, Ashraf Ghani, em visita a Washington, expressa sua "profunda gratidão" pela manutenção das tropas americanas no Afeganistão. Foto: Glenn Johnson | fotospublicas.com.
O presidente afegão, Ashraf Ghani, em visita a Washington, expressa sua “profunda gratidão” pela manutenção das tropas americanas no Afeganistão. Foto: Glenn Johnson | fotospublicas.com.

Assim como aconteceu nos recentes casos do Charlie Hebdo e do caos provocado pelo Estado Islâmico, volta e meia a teoria do choque de civilizações embala as reações belicistas do Ocidente contra as insurgências perpetradas por ações de grupos extremistas, tal como os ataques de 11 de setembro, rotulados, naquele dia, com uma chamada sintomática pelo canal de notícias CNN: “America under attack” (“ EUA sob ataque”, em tradução livre).

À época, o politólogo Fred Halliday, em artigo publicado no jornal britânico The Guardian, contestou o discurso do choque de civilizações e a guerra ao terror nele amparada. Para Halliday, a tese de que há uma incompatibilidade entre os valores ocidentais e islâmicos não é um estigma exclusivo do lado de cá: algumas comunidades muçulmanas igualmente expostas a esse tipo de demagogia responderam com extremismos, como aqueles de 11 de setembro. Em 2001, Halliday prenunciava o fracasso da guerra ao terror ao lembrar que se trata de uma guerra contra um inimigo indefinido, abstrato e com reações imprevisíveis, mantendo um estado de guerra permanente. Sob esse aspecto, nenhuma guerra absoluta é possível de ser vencida. “A guerra contra o terror é uma guerra sem fim”, dizia, naquele momento.

Cerimônia marca fim dos treze anos de ocupação da OTAN no Afeganistão. Foto: ISAF | fotospublicas.com.
Cerimônia marca fim dos treze anos de ocupação da OTAN no Afeganistão. Foto: ISAF | fotospublicas.com.

Mais de uma década depois, a tragédia anunciada por Halliday continua sem um fim definido e é ilustrada no documentário This is what winning looks like (sem tradução para o português), no qual o jornalista Ben Anderson acompanha a retirada de tropas americanas do Afeganistão anunciada pelo governo Obama em 2012. Na ocasião, ao anunciar a retirada de 34 mil soldados americanos do Afeganistão, Obama declarou: “Até o fim do próximo ano, nossa guerra no Afeganistão terá acabado”. Na cena seguinte, o general Allen, então comandante da ISAF (a Força Internacional de Assistência à Segurança da OTAN) emendava: “Isto é vitória, este é o gosto da vitória e não devemos ter medo de usar essas palavras”, anunciava o general.

Em uma das cenas emblemáticas do documentário, um soldado americano tenta ensinar ao exército afegão – composto por homens sem farda com altas doses de heroína no sangue – , em inglês, noções básicas de higiene, como lavar as mãos antes das refeições. Em resposta, ouve gargalhadas escrachadas dos soldados afegãos e um aviso: “nós fomos à escola. Sabemos lavar as mãos”. Consternado, o soldado americano desabafa: “Nós perdemos nosso tempo aqui, longe das nossas famílias, para ajudar vocês”.

Herat, Afeganistão - até 2014, o Afeganistão liderava o ranking mundial de país exportador de refugiados, sendo ultrapassado apenas nesse ano pela Síria. Foto: Erica Kanalstein/UN | fotospublicas.com.
Herat, Afeganistão – até 2014, o Afeganistão liderava o ranking mundial de país exportador de refugiados, sendo ultrapassado apenas nesse ano pela Síria. Foto: Erica Kanalstein/UN | fotospublicas.com.

Ao pretender salvar um povo que não pediu para ser salvo, os EUA tinham em mãos uma receita pronta para o desastre. O ataque ao hospital dos Médicos Sem Fronteiras é mais um “efeito colateral”, para usar a expressão do momento no Pentágono, da cruzada estadunidense contra o terrorismo. Nesse caso, o crime de guerra e as graves violações ao direito internacional humanitário chegaram às vistas do Ocidente: foram 22 mortos, todos civis, após quase uma hora de mísseis descarregados sobre o hospital.

Não fosse a tragédia do bombardeio ao hospital e o esforço jornalístico de pessoas como Ben Anderson, a anedota do fim formal da Guerra do Afeganistão, televisionada aos quatro cantos do mundo, talvez tivesse vingado. Enquanto os civis do lado de cá permaneciam a salvo, as tropas americanas no Afeganistão continuavam a produzir suas vítimas longe da vista da mídia ocidental, sobretudo porque, na atual fase de guerra dos drones, há cada vez menos necessidade de grandes contingentes de forças humanas.

Malala Yousafzai, a jovem ativista paquistanesa. Foto: Mark Garten/UN | fotospublicas.com.
Malala Yousafzai, a jovem ativista paquistanesa. Foto: Mark Garten/UN | fotospublicas.com.

Talvez por essa razão os EUA se apressavam em chancelar a indicação da jovem Malala Yousafzai, vítima dos talibãs, ao Prêmio Nobel da Paz e a condecorá-la com a Medalha da Liberdade. Vítima de um ataque dos talibãs em 2012 que quase lhe custou a vida, Malala dedica-se a denunciar as barbaridades cometidas pelo regime talibã, que proibiu meninas de sua região de irem à escola.

A louvável batalha travada pela jovem paquistanesa inadvertidamente tem sido usada para provar ao Ocidente que a guerra ao terror é justa e se destina a resgatar as vítimas da violência fundamentalista do regime talibã. Com isso, em última análise, serve como suporte ao “fardo do homem branco”.

Um erro de cálculo, porém, colocou um hospital humanitário na rota dos mísseis americanos e levantou a cortina da guerra secreta, expondo as vítimas que suas batalhas continuam a fazer naquelas paragens. Se esse é o gosto da vitória, o paladar do general está doente.

No artigo de 2001, Halliday nos lembrava que o verdadeiro choque existente no mundo islâmico é interno, e não contra a civilização ocidental-cristã. Choques culturais são invocados em textos sagrados de diversas religiões que, de uma forma ou outra, podem servir a legitimar a violência, o terror ou o sacrifício individual. A grande ironia, nesse caso, é que, ao insistir em travar sua guerra de civilizações em nome da “Liberdade Duradoura”, o heroi americano tornou-se vítima e prisioneiro duradouro do Destino Manifesto de sua ética protestante.

Refugiados em Herat, Afeganistão. Foto: Erica Kanalstein/UN | fotospublicas.com.
Refugiados em Herat, Afeganistão. Foto: Erica Kanalstein/UN | fotospublicas.com.

 

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camila-torres

Camila é advogada pública. Especialista em Direito Público, interessa-se por temas referentes à política nacional e internacional e questões socioambientais.

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