Gula: um pecado subestimado

As leis cristãs nos ensinam que existem sete pecados capitais: a gula, a avareza, a luxúria, a ira, a inveja, a preguiça e a vaidade (ou orgulho). A vida já me ensinou que não existe um que possa ser tão pior que o outro. Quaisquer deles em grandes proporções podem trazer resultados trágicos.

“Qual é o seu pecado?”, alguém da mesa pergunta. A resposta é quase sempre a mesma. A inveja é negada por todos. A luxúria e a ira geralmente são evocadas pelos homens que querem parecer mais machos; a vaidade ou orgulho, pela galera da alta autoestima. Enquanto a gula e a preguiça são os pecados mais admitidos e socialmente aceitos.

Aí eu digo que meu grande pecado é a gula. Alguém sustenta um “não valeu”. Porque há quem ache que simplesmente ter fome e ter vontade de comer já configura o pecado. Sempre tem uma magrelita que se diz gulosa. Você faz o teste da pizza e a danadinha come duas ou três fatias, e já se diz satisfeita. Faz-me rir! Vou dizer pra você o que é uma pessoa gulosa.

Uma pessoa gulosa não consegue respeitar tira-gostos. Se você tem intimidade com o grupo, já senta do lado do patê e da torrada e vai metendo bala. Se não tem intimidade, tudo que está ao seu redor perde o interesse. Você não se concentra mais nas pessoas e no que elas estão dizendo, você pensa apenas quantos segundos ou minutos tem que aguardar para pegar o próximo salgadinho sem parecer uma desesperada. A conversa começa a perder o ritmo. E a coisa só fica pior quando você percebe que existe outra pessoa gulosa na roda. Começa um confronto silencioso, “*@%#*, esse safado tá comendo muito rápido, vai acabar tudo”. Aí você apressa o passo, tentando não perder a elegância, que esse escroto não tem pudor algum em perder.

Dividir comida também é um problema. Peraí, deixa eu explicar. O egoísmo não chega a tanto! No meu caso, não tenho problema em dividir a comida que está dentro de uma panela, e cada um pôr no seu pratinho o que tem vontade de comer. O problema é quando você faz o seu prato com uma quantidade mediana de comida, cria a expectativa de comer tudo que ali está, e vem algum folgado roubar o que há de melhor no recipiente. Situação pior: quando você guarda, por exemplo, aquele sushi mais gostoso pro final, e vem uma pessoa cheia da intimidade dar uma roubadinha. Dá logo uma pontada no coração. A boca fica salivando com a expectativa da mordida perdida.joey-doesnt-share-food

E quando querem um pedaço de um bocadinho de comida, como uma trufa? A mordida extingue logo 40% da bolinha. Prejuízo para a trufa e para o bolso. Pague logo metade dessa danada, camarada!

O momento da divisão em fatias de alguma comida também é um conflito. Se você tem irmãos selvagens, pior ainda. A partilha de uma pequena torta ou de uma pizza, pode gerar grandes discussões. “Ei, o seu pedaço tá bem maior que o meu!”.

É feio, muito feio. Pecadinho egoísta pra caramba. Juro que estou tentando me tratar, pra me transformar apenas numa comiloninha, e não numa gulosa.

menina - macarraoPor outro lado, os pecados também têm o seu caráter transgressor e, mais uma vez, a questão de gênero aparece. Ser uma mulher comilona também é ser passível de julgamentos machistas. Um homem comilão demonstra sua virilidade, voracidade, quase um reflexo que é comedor em outro níveis. Ele é um selvagem, um homem das cavernas. Precisa comer muito, para fazer todas aquelas atividades que exigem do seu físico de macho (eu digo: RUM, até parece, trabalhadorzão!). Já as mulheres têm que comer pouco, para deixar comida suficiente para o seu macho ou para a prole. Devem demonstrar também que é alguém que não dá muitas despesas e, claro, não vai engordar muito.

É assim que o patriarcado interfere até no seu apetite! Tá de brincadeira, né? É por isso que não só se revoluciona na luxúria, há revolução na gula também!

Então, não subestime a gula no seu poder de destruição social; nem no de revolução. Pode pegar o pote de Nutella e detonar, amiga. Só não esqueça de deixar umas colherzinhas pra turma.

*Originalmente publicado em yonocreopero.blogspot.com.br, em fevereiro de 2014.

 

 

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mariana-nobrega

Mariana é doutoranda em ciências criminais e mestra em ciências jurídicas. Pesquisa sobre direitos humanos, teorias feministas e criminologia. Também é servidora pública e mais uma advogada de araque neste país de direitoloides.

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