Chegamos ao choque de civilizações?

Foto: Vincent Gilardi/Fotos Publicas
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Em 1993, embalado pelo fim da Guerra Fria e por formulações como a de Francis Fukuyama, que anunciava o fim da História com o triunfo da civilização ocidental, o cientista político Samuel Huntington formulou a teoria do choque de civilizações, segundo a qual os grandes conflitos contemporâneos da humanidade não seriam mais ideológicos nem econômicos – a fonte predominante de conflito seria de ordem cultural. Sedutora, a tese ganhou mais adeptos após o fatídico 11 de setembro. Com a recente tragédia de Paris, a pergunta ressoa: Huntington teria razão?

Samuel Huntington desenvolve sua teoria a partir da premissa de que, no mundo contemporâneo, a política internacional teria como foco principal a interação entre a civilização ocidental e as não-ocidentais (e entre as não-ocidentais entre si). O cientista político enumera sete ou oito grandes civilizações (ocidental, confuciana, japonesa, islâmica, hindu, eslava ortodoxa, latino-americana e, “possivelmente”, africana). Dentre elas, existiriam diferenças fundamentais que, no contexto de interações cada vez maiores entre si (“o mundo está ficando menor”), sobressairiam sob a forma de consciência e identidade das civilizações. Essa identificação teria no componente religioso seu liame cultural mais proeminente.

Com isso, ao conceber suas identidades em termos religiosos (e étnicos, em alguns casos), as pessoas tenderiam a enxergar suas relações com pessoas de grupos civilizatórios distintos como um jogo de “nós” contra “eles”.

Uma leitura apressada do comunicado enviado pelo Estado Islâmico, no qual o grupo jihadista sunita assume a autoria dos ataques, pode funcionar como a armadilha perfeita para nos empurrar às predições de sua teoria. Um grupo de fieis soldados do Califado (que Alá os fortaleça e dê suporte), começou estabelecendo alvos na capital da prostituição e do vício, a maior mensageira da cruz na Europa, Paris”, diz a carta. Em tom de ameaça, o Estado Islâmico afirma que esse é apenas o começo e que, enquanto seguirem o caminho das cruzadas, insultarem o Profeta e se vangloriarem de sua guerra contra o Islã e de suas ofensivas contra o Califado, a França e seus aliados continuarão a ser os principais alvos do Estado Islâmico.

O confronto cultural, portanto, parece ser o enredo perfeito para extremos de ambos os lados. Com esse discurso, radicais islâmicos e ocidentais islamófobos contribuem para alimentar o ódio recíproco e para, assim, se enxergarem como fundamentalmente inconciliáveis. É na suposta inevitabilidade do conflito cultural que se situam e agem aqueles que habitam esses extremos, pois o discurso serve a embasar, em última análise, a tese de que a guerra é uma consequência lógica e natural dessa disputa cultural.

Contudo, a teoria do choque de civilizações caminha sobre um pressuposto apenas em parte verdadeiro e, por isso, sua conclusão não resiste às incongruências nela mesma introduzidas. Como explica o próprio Huntington, cada vez menos capazes de promover a adesão de suas populações exclusivamente com amparo em ideologias, governos e grupos tentam mobilizar apoio apelando para a religião comum e a identidade civilizacional, nelas encontrando um poderoso elemento de arregimentação – o que não significa que o embasamento corresponda às motivações mais íntimas de quem se utiliza dele.

Homenagem às vitimas dos atentados no centro de Paris. Foto: Vincent Gilardi/Fotos Publicas
Homenagem às vitimas dos atentados no centro de Paris. Foto: Vincent Gilardi/Fotos Publicas

Ao privilegiar o aspecto cultural, a tese do choque de civilizações obscurece as motivações econômicas e de poder presentes nessas ações. A arregimentação cultural, para os críticos de Huntington, não é um propósito em si mesmo, mas um instrumento para a realização de outros propósitos. Se assim não fosse, como se justificariam certas alianças de representantes do mundo islâmico com o Ocidente? Como explicar que a Arábia Saudita, o maior reduto sunita do Oriente Médio, seja também o maior aliado dos EUA nessa região? E não é só: a crise da dívida grega, que ameaçou desintegrar a zona do euro, expôs as motivações essencialmente econômicas que preservavam os laços supostamente amparados no europeísmo.

Como já dissemos aqui, a cobiça ocidental pela região da Eurásia e, mais adiante, pela região do Oriente Médio (heartland e rimland, respectivamente, nas acepções preconizadas por Halford J. Mackinder) pouco tem de inspiração cultural – o objetivo de dominação dessas regiões é fundamentalmente econômico, como o foi o acordo intitulado Sykes-Picot.

Esse acordo, celebrado durante a desintegração do Império Turco-Otomano em meio à Primeira Guerra Mundial (1914-1918), desenhou secretamente linhas de fronteiras e zonas de influência francesas e britânicas sobre esses territórios ao mesmo tempo em que França e Grã-Bretanha, em troca de apoio para derrubar os alemães, prometiam a Hussein de Meca a independência desses países e a formação de uma grande nação árabe.

Em contraposição às ideias de Huntington, Fred Halliday alertava que todas as religiões possuem textos que podem ser utilizados para embasar o terror. Para Halliday, tanto o extremismo religioso quanto a incitação à guerra ao terror são, na verdade, manifestações demagógicas contra o fracasso do Estado moderno, incapaz de lidar com os problemas sociais e econômicos que desgastam a relação da população com os governos e tendem a deslegitimar o poder estatal.

Do lado europeu, os sintomas são outros. O livro “Submissão”, do escritor francês Michel Houellebecq, conta uma história que se passa em 2022, quando um político integrante da Irmandade Muçulmana assume o governo da França. Esse livro foi lançado coincidentemente no mesmo dia do atentado ao semanário Charlie Hebdo, o que lhe atraiu sucesso imediato. Em entrevista à GloboNews, Houellebecq não esconde seu desprezo pelos jornalistas e parece se orgulhar da própria ignorância sobre a cultura a respeito da qual escreve. Ao ser perguntado sobre o papel do Islã na história colonial francesa, Houellebecq responde: “As pessoas não sabem disso. Eu nem sabia que tínhamos colônias. Na verdade nunca tinha pensado nisso na vida. E não penso nisso quase nunca”.

Com 59 anos, é provável que Michel Houllebecq tenha estudado na escola apenas o “romance nacional”, como tem sido contada a História francesa pela sua historiografia tradicional, de caráter fortemente chauvinista, que enfatiza os herois da Revolução Francesa e evita problematizar os ímpetos expansionistas da França, buscando exaltar seus valores identitários da “consciência francesa”.

Assim, o pouco (ou nenhum) conhecimento dos franceses – e do Ocidente em geral – sobre o mundo islâmico ajuda a reproduzir os mitos que o cercam: “quando você vê notícias sobre grupos cristãos radicais atacando clínicas de aborto nos Estados Unidos, você automaticamente sabe que isso não representa a corrente principal da religião. Mas, se você não sabe nada do islamismo e tudo que vê são radicais agressivos, pode confundir a minoria com a maioria”, explica o internacionalista americano John Esposito.

No caso da França, conviver internamente com um grupo de migrantes que, ao contrário dos demais, não tem a pretensão de incorporar seus valores causa estranhamento e indignação aos franceses. Como disse o ex-embaixador brasileiro Marcos Azambuja, em entrevista ao jornal Zero Hora, “a França tende a ser convicta de que o seu modelo é aquele ao qual os outros devem aderir e que estar no país deve implicar a aceitação de seus valores. A França não tem flexibilidade de absorver o diferente. A França hierarquiza em torno, se você quiser, dela mesma”.

Enquanto boa parte dos franceses parece desconhecer a história colonial de seu país, muitas crianças das ex-colônias francesas são ensinadas, desde cedo, sobre como seus países e cultura foram vilipendiados pelos colonizadores na história recente da humanidade. No caso das ex-colônias localizadas no Oriente Médio, um componente latente ajuda a fomentar esse ressentimento: em 1946, antes de abandonar formalmente suas colônias e protetorados no Oriente Médio, o Ocidente forjou ali a criação de um Estado aliado, Israel, contra a vontade de todos os seus vizinhos (de maioria muçulmana) e sobre os quais lançaria, pouco depois, seus arroubos expansionistas.

Assim como o discurso do choque de civilizações serve aos propósitos dos radicais islâmicos e da direita europeia em igual medida, por aqui, muitos de nós também acabamos de cair na cilada do “nós” em detrimento “deles”: nos últimos dias, nas redes sociais, alguns internautas insurgiram-se contra a solidariedade prestada às vítimas francesas, dirigindo sua indignação preferencialmente à tragédia de Mariana. Pergunto: indignar-se apenas ou preferencialmente por Mariana não é, também, uma indignação seletiva? Não é, também, um “nós antes deles”?

Há aqueles que advogam que, sim, se no mundo é cada um por si, sejamos nós por nós mesmos. A história, contudo, está repleta de exemplos de que essa é uma receita para o desastre. Na reunião do G20 realizada no último domingo, a tônica dos interesses ficou evidente: “Vamos redobrar esforços para assegurar uma transição pacífica na Síria e para eliminar o Estado Islâmico”, declarou Obama. Leia-se: a missão número um ainda é derrubar Bashar al-Assad, não o Estado Islâmico. Mas isso já é assunto para outra conversa.

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camila-torres

Camila é advogada pública. Especialista em Direito Público, interessa-se por temas referentes à política nacional e internacional e questões socioambientais.

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2 comentários

  1. Camila Torres, por ocasião do atentado contra o Carlie Hebdo escrevi o artigo COMO A CIVILIZAÇÃO PODE VENCER A BARBÁRIE SEM RECORRER AOS MESMOS MÉTODOS? http://wp.me/p4alqY-cX
    onde procuro formular uma tese de inclusão da comunidade muçulmana na França e no mundo todo. Mas confesso que minha tese se esvaziou com um vídeo de um encontro entre lídernças religiosas sunitas com jovens muçulmanos na NORUEGA. Assista e me diga se vê alguma possibilidade de uma sociedade como a nossa no Brasil ou a Francesa, ou a de qualquer democracia ocidental, acolherem tais ideias e costumes: O Islã “moderado”
    https://www.youtube.com/watch?v=STmanv1ICkk

  2. Interessante sua linha de raciocínio, a intolerância contra as diferenças de padrões culturais é dogmas religiosos pode ser sim uma das principais causa de conflitos, mesmo após o fim da Guerra Fria, como o pensamento do sociólogo Émile Durkheim alega que uma coerção sobre a sociedade é exercida por religiões, então uma exterioridade (também da sua obra) adaptar nesse contexto, nós sofremos com isso, sua regionalização pode ser uma hipótese que não daria certo, por dividir o mundo em costumes sociais, suma acabaria não tendo um sincretismo entre povos é culturas.

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