As idades para o amor: cabe definir?

O feminismo tem se popularizado e isso é ótimo. Muita gente se conscientizando com o machismo da nossa sociedade e isso só tem a acrescentar.

Só queria chamar a atenção para um tipo de crítica muito corrente que tem rolado por aí: a dos homens que curtem “novinhas”. Ninguém parece se dar conta de que existem mulheres que gostam de “velhinhos” e esse também é um motivo para a coisa acontecer. Estamos falando de mulheres jovens, mas que não são crianças, importante salientar, e podem decidir com quem querem namorar ou não.

Se alguém tem que decidir com quem se relacionar é a moça e mais ninguém. Ou ela vai ter que pedir autorização de uma pessoa responsável pra começar a se relacionar com alguém? Se sim, com que idade uma mulher pode deixar de ser relativamente incapaz para começar a namorar? Vamos começar a estabelecer uma idade mínima para o início de um namoro? Tem que ser maior de idade? E se for uma moça de 16 anos e um rapaz de 19? Que diferença de idade é aceitável? Acho que a crítica recai num moralismo muito próximo do mais conservador discurso religioso, que só tende a infantilizar as mulheres.

Na minha concepção, o feminismo tem a ver com autonomia e emancipação feminina, foi o instrumento responsável por evidenciar que as mulheres têm poder de decisão sobre os rumos da sua vida. Um dos seus principais intuitos também foi criticar a moral sexual vigente, que sempre impôs normas de conduta, o que é certo e o que é errado dentro das relações sexuais. Isso, inclusive, também foi o mote do movimento LGBT, que também por séculos teve que lidar com regras sobre o que era considerada a sexualidade “normal”. Toda herança libertária desses movimentos parece ir por água abaixo quando alguns grupos feministas começam a explicar o que duas pessoas maduras o suficiente devem fazer ou não com sua sexualidade. Nosso foco de luta está na violência, nas relações abusivas e opressivas, nas investidas não consensuais, e não no estabelecimento impositivo do que deve ser o casal ideal. Isso é contrário a tudo o que foi construído por esses movimentos sociais tão importantes na luta pela dignidade humana.

Fazer uma crítica aos padrões de beleza e à excessiva valorização da juventude é muito válido. Porém, parece-me razoável abordar essa questão de uma maneira macro, e não julgando individualmente condutas de homens e mulheres, sem sequer saber das vicissitudes e das motivações das pessoas interessadas. Corremos o risco de recair em discursos autoritários e em juízos de valor que não nos cabe, tolhendo a liberdade individual por meio de um patrulhamento moral não muito diferente do patriarcalismo que tentamos combater.

Se uma moça consente e se interessa por um cara mais velho, estaríamos certas em dizer que ela não sabe o que está fazendo e está sendo manipulada? Enfim, acho que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E aqui quem vos fala nunca sequer beijou um cara mais de três anos mais velho que ela. Isso porque nunca me interessei por caras muito mais velhos. Mas isso é coisa minha e quem decide sou eu. Assim como qualquer pessoa pode escolher ou preferir se relacionar com quem a corresponda, sendo esta jovem ou velha.

 Ps: Quem me conhece há muito tempo sabe que eu tinha opinião completamente oposta a essa. Não estranhem, mudei de opinião mesmo. A vida ensina.

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mariana-nobrega

Mariana é doutoranda em ciências criminais e mestra em ciências jurídicas. Pesquisa sobre direitos humanos, teorias feministas e criminologia. Também é servidora pública e mais uma advogada de araque neste país de direitoloides.

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