Mais histórias, menos aulas!

Foto: Cidade de Deus (2002), o filme mais conhecido do cineasta Fernando Meirelles.
Foto: Cidade de Deus (2002), o filme mais conhecido do cineasta Fernando Meirelles.

Conhecido por filmes como Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel, o cineasta Fernando Meirelles lançou, este ano, o documentário A Lei da Água, que produziu via crowdfunding. Lançado pouco antes do terrível desastre de Mariana, o filme trata das consequências decorrentes da entrada em vigor do Novo Código Florestal – o timing de Meirelles foi uma (in)feliz coincidência à moda do que aconteceu com Michel Houellebecq, o escritor que lançou um livro sobre a expansão islâmica na França no mesmo dia dos atentados de Charlie Hebdo.

Fernando Meirelles em entrevista ao Pandora Livre. Foto: Camila Torres.
Fernando Meirelles em entrevista ao Pandora Livre, no Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. Foto: Camila Torres.

Em bate-papo com o Pandora Livre, Fernando Meirelles nos contou sobre seu processo criativo e sobre a capacidade de sensibilizar pessoas para uma causa por meio de uma obra – ou, para ele, sobre a importância de contar bem uma história. Para Meirelles, a dificuldade de grupos da sociedade civil organizada em chamar a atenção para sua bandeira está associada à forma excessivamente técnica e “chata” como relatam o problema. As pessoas em geral não se sensibilizam com estatísticas, dados e infográficos, mas com histórias, com personagens com os quais se identificam e nos quais se projetam.

“A culpa é de vocês, cientistas. Vocês não têm linguagem para comunicar. Vocês se comunicam entre vocês e esquecem que as pessoas que estão fora não estão interessadas no que vocês estudam. O cara não tá nem aí pro seu sapo”, disse Meirelles à plateia de ambientalistas do último Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, em Curitiba.

Ele lembra que toda a nossa formação moral, desde a infância, é construída a partir de narrativas que contêm uma mensagem, a famosa “moral da história”, e isso não se dá ao acaso. É que, como já dissemos aqui, as emoções são fundamentais para o envolvimento e a aprendizagem. As narrativas, há tempos, fazem parte do discurso pedagógico de construção de nossa personalidade moral.

Meirelles explica que todas as religiões usam histórias para transmitir lições de moral. “Na Bíblia não tem estatísticas nem gráficos. Tem histórias de mestres, parábolas. Os evangélicos são muito bons em comunicação: usam histórias do cotidiano das pessoas, que eles repetem todos os dias”, afirma.  “O que pega as pessoas é o recado emocional. Sentir no corpo, no coração. Não adianta números e planilhas”.

A maioria das narrativas adota o tradicional esquema de três atos preconizado por Aristóteles para o teatro, que foi trasladado para o cinema e é seguida à risca por Hollywood. Nessas narrativas, há três momentos bem marcados: começo (sentir pena), meio (sentir medo) e fim (catarse). Grosso modo, para contar bem uma história, é preciso, nesse primeiro ato, fazer o espectador se identificar com o personagem e se envolver com ele. “Ninguém tá nem aí para ninguém, nós queremos ler sobre nós mesmos. O que não tem a ver comigo não me interessa. Por isso, o espectador tem de se projetar naquele cara para gerar interesse na história”, sustenta Meirelles. “A gente vai ao cinema pela catarse. Essa sensação é muito prazerosa. É um banho de neurotransmissor”, conclui.

Realmente, o processo cognitivo se forma com maior solidez quando ativamos outras partes do cérebro ao nos depararmos com a informação. É mais fácil assimilar uma informação que combina sentidos – lida, ouvida, falada e vista – do que aquela que aciona apenas um deles. Além disso, quando a razão é aliada à emoção, é como se os dois lados do cérebro trabalhassem a informação ao mesmo tempo, o que contribui para que seu conteúdo seja internalizado e passe da memória de curta duração para a memória de longa duração – aquela que, ao longo do tempo, guarda nossas experiências e referências e nos inclinará a formular nossas convicções morais, políticas, espirituais.

Por isso, os filmes de ficção tendem a alcançar meios sociais que não costumam ser atingidos por documentários, os quais, muitas vezes, acabam se voltando apenas a quem já está convencido da causa. Embora essas obras de não-ficção também cumpram um relevante papel, porque operam no plano qualitativo, ajudando a dar consistência aos argumentos uma determinada causa, são filmes como Que horas ela volta?, de Anna Muylaert, que, com sua narrativa impactante, fazem muita gente vestir a carapuça e se questionar sobre a falsa harmonia de classes no país (leia resenhas do Pandora Livre sobre Que horas ela volta? aqui e aqui).

Cartaz de "Virunga", documentário indicado ao Oscar de 2014.
Cartaz de “Virunga”, documentário indicado ao Oscar de 2014.

Mas há honrosas exceções, que funcionaram bem justamente porque conseguiram, como documentários, contar a história de personagens de modo a humanizar a causa e aproximá-la dos sentimentos e das pessoas comuns. “Virunga, por exemplo, é um documentário incrível que fala sobre a situação de proteção de gorilas e tal, mas tem uma história. Tem três histórias, na verdade, que se entrelaçam, você se envolve”, explicou Meirelles ao Pandora Livre. Outro caso de narrativa bem-sucedida citada pelo cineasta são as ações do Greenpeace, porque, em vez de apenas empunhar cartazes e palavras de ordem, a ONG formula uma história, um personagem que vai até a embarcação caça-baleias, um herói que encanta o público.

É claro que uma obra, por si só, não moldará ninguém, nem se deve atribuir a ela esse papel. A formação da consciência crítica se desenvolve justamente a partir da síntese própria formulada a partir experiências e impressões que acumulamos em nossa memória. Para que as mensagens nos toquem o espírito, o recado de Meirelles é: mais histórias, menos aulas.

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camila-torres

Camila é advogada pública. Especialista em Direito Público, interessa-se por temas referentes à política nacional e internacional e questões socioambientais.

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1 comentário

  1. Pandora abre o Jarro, deixando escapar todos os males do mundo, menos a “esperanca”. A esperanca pode ser vista como um mal da humanidade, pois traz uma ideia superficial acerca do futuro.

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