Hipocrisia, terrorismo e cumplicidade

Refugiados na Síria. Foto: UNRWA | fotospublicas.com.
Refugiados na Síria. Foto: UNRWA | fotospublicas.com.

Podemos falar em guerra contra o terrorismo num contexto em que os países centrais (EUA, Inglaterra, França etc) criam condições concretas para que grupos extremistas surjam, inspirados ou não por dogmas supostamente religiosos?

No caso do Estado Islâmico, o cinismo estadunidense vem subestimando a humanidade. É preciso entender que a intervenção criminosa dos Estados Unidos no Iraque, responsável pela fragilização deste, somada às intervenções na Síria, mediante o armamento de grupos rebeldes ao governo de Assad, condicionou que organizações extremistas surgissem como opção à miséria e à sistemática perda da autonomia. Sabe aquelas armas químicas no Iraque? Nunca foram encontradas. É possível pautar a necessidade de um regime democrático na Síria, enquanto a Arábia Saudita, um dos regimes mais fechados do planeta e principal financiador de organizações fundamentalistas no Oriente Médio, permanece como um dos principais parceiros comerciais dos EUA?

Democracia e liberdade são as palavras de ordem da conveniência imperialista. Se um país, como é o caso da Arábia Saudita, permite que grandes volumes de recursos financeiros sejam encaminhados para essas organizações dita terroristas com ampla facilidade, por que não recebem do Ocidente o mesmo tratamento que Afeganistão, Iraque e Síria?

Foto: Glenn Fawcett | fotospublicas.com.
Foto: Glenn Fawcett | fotospublicas.com.

E no caso da Turquia, país membro da OTAN? Aí nos deparamos com uma avalanche de contradições. Seu atual governo protagoniza repressões violentas acompanhadas de assassinatos a grupos opositores, especialmente de esquerda, e ainda por cima ajudam o Estado Islâmico a combater os curdos. Ora, se os curdos representam atualmente a principal força de resistência e combate terrestre ao Estado Islâmico, por que estaria a Turquia caminhando na contramão do enfrentamento ao dito terrorismo e bombardeando regiões curdas? Vejam bem, o governo de extrema direita turca vem atualmente dando suporte financeiro e logístico ao EI, faz vista grossa à entrada e saída de combatentes pela sua fronteira, compra petróleo e outros produtos contrabandeados desse grupo e enfrenta os curdos, mas em nenhum momento os grandes meios de comunicação fazem qualquer tipo de denúncia. Foi necessário derrubarem um caça da Rússia, potência militar que atua na Síria combatendo o Estado Islâmico, para que a face fascista do governo turco viesse à tona.

Estão mesmo a França, os EUA e cia. tão empenhados no combate ao Estado Islâmico? Os bombardeios e milhares de mortes de civis ocorridas na Síria e Iraque provocadas pelas intervenções militares a esses países não se igualam às ações dos grupos ditos como terroristas? Por que a Turquia e a Arábia Saudita ainda não sofreram nenhum boicote econômico da União Europeia e dos EUA?

Barack Obama e François Hollande conversam após ataques a Paris. Foto: Foto: Élysée – Présidence de la République française | fotospublicas,com.
Barack Obama e François Hollande conversam após ataques a Paris. Foto: Foto: Élysée – Présidence de la République française | fotospublicas,com.

A hipocrisia e a indignação seletiva predominam na geopolítica internacional. Obama e Hollande lamentaram publicamente o triste atentado de Paris, mas é fato que a morte de centenas de inocentes comoveu infinitamente mais do que as milhares de vidas retiradas pelas covardes ações militares do Ocidente no Oriente Médio e do que as diárias mortes provocadas pelo Estado Islâmico na região em que atua. Enquanto as ações da indústria bélica crescerem na bolsa de valores e a disputa pela região petrolífera movimentar as atuações dos países imperialista, não se pode falar em combate ao terrorismo e, sim, em cumplicidade.

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Amante de geopolítica, história e café, professor de Direito do Trabalho e Direito Internacional Privado, advogado nas horas vagas.

Giramundo

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5 comentários

  1. Indignação seletiva… não poderia ter escolhido expressão melhor. Texto curto e direto, parabéns. Devo acrescentar que devemos parabenizar o formidável trabalho de alienação midiática. Afinal, o compromisso do jornalismo é com a credibilidade. Trocando em miúdos, a ausência da verdade sustenta a mentira como única informação viável.

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