Ashes to Ashes: Ziggy retorna ao espaço

É difícil perceber quando uma canção entra de verdade nas nossas vidas, quando uma melodia realmente ganha forma dentro da gente. Aos poucos vamos nos dando conta de que aquilo é o que se chama de música e que nos agrada, e nos toca de uma forma que, anos depois, vamos perceber que só a arte pode fazer: algo que nos emociona sem precisar dizer nada – pode ser uma cor, uma forma, uma nota.

Uma das primeiras músicas que me encantou, na infância, e ainda lembro de descobrir num CD-ROM da Enciclopedia Encarta, por meio de um clipe, foi “Changes”, de Bowie. Numa época na qual a MTv era para poucos e a internet, uma raridade, ter a Encarta com seus vinte e tantos segundos de clipe era uma revolução.  Lembro de minha mãe chegando com esse objeto repleto de conhecimento e tecnologia – é, garotada, havia vida antes do Google e do Youtube; difícil, mas ainda assim vida – e ficar explorando comigo e com meus irmãos os vídeos que apareciam na tela. No meio daquela infinidade de conhecimento, textos e videoclipes, encontro a referida música. Para procurá-la novamente, a busca era feita mais ou menos assim: música-gêneros-rock-artistas-david bowie, tudo escalonado dentro de umas pastas que apareciam ao lado direito da tela. Repetir essa pesquisa era um ritual que eu muitas vezes esquecia de como fazer e me angustiava: “como eu chego mesmo naquele homem do ch-ch-ch-ch?”. Depois, os anos passaram e conheci um pouco mais desse artista.

Ele despontou para a fama com o single Space Oddity (1969), numa época em que a Guerra Fria e a corrida espacial e armamentista davam a tônica do momento. Depois alcançou maior repercussão com Ziggy Stardust, incorporando o personagem de um guitarrista alienígena andrógino, vindo a matá-lo algum tempo depois. Depois reapareceu com Aladdin Sane e daí para as mais diversas fases: Diamond Dogs, Young Americans, Heroes etc.

Gif homenagendo os 50 anos de carreira de David Bowie e suas diversas fases.
Gif homenageando os 50 anos de carreira de David Bowie e suas diversas fases.

Bowie naturalmente problematizou a questão de gênero com sua aparição como Ziggy Stardust e toda a sua confusão andrógina. Por isso é possível notar que muito de seus fãs tendem a ser sensíveis às questões de preconceito de gênero, já acostumados com a figura do guitarrista alienígena. Bowie não só provocou discussões em torno da questão de gênero, machismo e outras formas de dominação, mas também convocou os seus fãs a aceitarem a novidade através de suas diversas facetas, que vão desde o rock mais sujo ao funk/soul americano. Toda a sua obra foi marcada pelo requinte e pela reflexão, pois ele soube unir como poucos melodia, letra e performance.

Desde 2003 David não lançava material novo, tendo rompido o jejum com The Next Day de 2013 e dado seu adeus há três dias, com o lançamento de Blackstar.

Há anos se recusando a dar entrevistas, Bowie partiu ontem – após 18 meses tratando-se de um câncer. Saiu do mundo como entrou: original e ousado, utilizando a música como uma arte questionadora de padrões e cuspindo na cara da caretice e da mesmice, lançando aos 69 anos um álbum de música experimental (no qual podemos ver já seus pensamentos sobre seus últimos momentos, como em Dollar Days e Lazarus).

Poderia dizer que o mundo acorda menos inventivo, mas, depois de sua presença na humanidade, não reverberar sua obra é impossível. E isso marca grandes gênios. Depois que passam, eles não levam consigo o que criaram, deixam tudo aqui para nos ajudar a sempre irmos mais além. Afinal, ch-ch-ch-ch-changes: turn and face the strange.

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monica-nobrega

Concurseira frustrada que ainda espera um dia largar tudo e revolucionar a música.

Artecétera

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