Crônica bissexta

Uma crônica bissexta, geralmente, tem vinte e nove linhas. Esse número varia, entretanto, a depender da fonte e da formatação utilizadas pelo cronista bissexto. E da inspiração dele também, por supuesto. Nesse caso, vamos ver como é que fica. No final, vocês contam.

Primeiramente, é importante que uma crônica bissexta tenha um quê de mega novidade, como uma fofoca outrora represada que, de repente, estoura e deixa todo mundo em polvorosa, tipo a revelação de que o João Machão, aquele seu vizinho metido a homofóbico do 302 é, na verdade, uma bicha louca. Ou que a beata da Silvinha, aquela sua amiga de infância meio estranha, é habituée de casas de swing junto com o Osvaldo, o marido dela bonachão que é a cara do Homer Simpson. Ou que o Carlinhos, lembra do Carlinhos?, foi o real culpado daquela treta com o Arnaldo pela qual você acabou pagando o pato.

Uma crônica bissexta também pode ser rodrigueana, policialesca. Pode ter indignação com o Aedes Aegypti, com a Xuxa na Record, com o urso que não ganhou o Oscar, com a insegurança em geral, com explosão de caixa de banco, com morte na favela e também, pasmem!, pode ter a fantástica confidência de que nada disso é culpa dos Direitos Humanos, muito pelo contrário, aliás. Não fosse a militância dos Direitos Humanos, tudo isso pioraria, e muito!

Uma crônica bissexta pode ser não só crônica, mas também uma reportagem noticiosa com as últimas novidades mais batidas que acontecem sempre de quatro em anos, tipo a notícia do partido nanico, de aluguel, que comprou espaço no rádio e no jornal pra dizer que ia ter candidato mas que estava só “valorizando o passe” e, no final de agosto, vai se vender de novo, como no ano bissexto passado.

Ainda, vale dizer que pode ser que numa crônica bissexta se trate, en passant, das obras eleitoreiras inauguradas a toque de caixa pelo prefeito, do arrocho do governo do estado contra o serviço público e da patifaria do governo federal que não peita quem deveria peitar. O cronista bissexto pode ainda, quiçá, tratar do processo de desmantelamento constitucional perpetrado pelo único ente que não poderia fazê-lo, no caso, o Supremo Tribunal Federal, mas que o faz a rogo da tal voz rouca das ruas.

Pois é, numa crônica bissexta tem outro monte de revelações. Tipo a de que o cronista bissexto é um cronista meio frustrado, um poeta meio frustrado, meio à toa na vida, meio que vendo a banda passar, meio que cantando coisas de amor.

Uma crônica bissexta tem tudo isso mesmo, de verdade. Legal, né? Só não explica porque o ano bissexto se chama bissexto, que é um negócio que esse cronista bissexto nunca entendeu. E aí, deram quantas linhas?

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olimpio-rocha

Nas horas não vagas, é advogado popular, professor universitário e trocador do botijão de água mineral. Nas vagas, vagueia.

Artecétera

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2 comentários

  1. Olimpio! Gostei da cronica! Tem uma explicacao confusa na Wikipedia sobre a origem do nome Bissexto, que nao entendi…

    Saudacoes bissextas pra voce! (Considerando que deve ter uns 4 anos desde que nos demos as ultimas…)

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