8 de março e suas homenagens constrangedoras

Hoje acordei cedo, e como boa filha dos tempos modernos, peguei meu celular e fui conferir as mensagens de WhatsApp. Em cada grupo que eu participo, ao menos uma linda mensagem adornada com rosas, fofuras e muitas felicitações “por este dia tão feliz”, fora enviada por algum amigo ou amiga bem intencionado(a).

Desde buquê de flores, citações bíblicas, poemas, canções evangélicas (!), à imagem de um pé com sapato alto pressionando o acelerador de um carro (isso não é proibido?) para simbolizar que mulheres também podem dirigir, uma a uma, fui degustando as mensagens ao dissabor desta manhã confusa de 8 de março.

Muitas adjetivações nos foram atribuídas carinhosamente, tais como: “virtuosas e belas”, pois mal parece que fomos retiradas da costela de Adão; “fortes”, por desempenharmos a dupla, tripla (por que não décima?) jornada de trabalho; “delicadas, porém guerreiras”, por termos conquistado nosso espaço no mercado de trabalho e ainda darmos conta do cuidado dos filhos, da casa e, claro, do maridão (coroando com aquele genial “tudo isso de salto alto”); “frágeis, carinhosas, doces, meigas, (em razão da fofura natural que nós exalamos pelos poros); ou “adoráveis esposas, companheiras e mães”, com o complemento clássico: “o que seria dos homens sem elas?”.

Exausta das mensagens, e envolta em um pavoroso embrulho estomacal, levantei com um “o dia vai ser longo!”, e vim trabalhar (para fazer jus ao “delicada, mas guerreira”). Abro minha caixa de e-mails e, que surpresa! Em meio às malas diretas, mais mensagens comemorativas. Entre elas, um texto de Victor Hugo, que, entre outras coisas, dizia: “O Homem é o gênio; a Mulher, o anjo. O Homem tem a supremacia; a Mulher, a preferência. O Homem é forte pela razão; a Mulher, invencível pela lágrima. […] O Homem pensa; a Mulher sonha. Pensar é ter cérebro; sonhar é ter na fronte uma auréola”.

Ao ler este texto do Séc. XIX, meu peito se encheu de raiva. Uma raiva feroz. Não apenas por ser constrangida a receber um turbilhão de mensagens que me fazem parecer um ser apático, estúpido, inferior, explorado, irracional e extraordinariamente retirado de uma costela, mas sobretudo por, além disso, ainda ter de estar diante de mais um 8 de março em que as pessoas creem vivenciar uma data comemorativa.

Está claro que o dia 8 de março não simboliza em sentido nenhum uma data comemorativa. Não é feriado, não é dia de festa. Não é aniversário, nem bodas. Não tem bom velhinho, comida típica ou animalzinho fofo. Não é uma data em que se dão presentes ou se fazem festinhas. E não apenas porque não temos tanto o que comemorar diante das violências ainda intensamente sofridas, dia após dia, por cada uma de nós; mas também pelo fato de que o potencial revolucionário deste marco histórico de terror e ódio de gênero, na medida em que se dissolve em meio a campanhas publicitárias, feriados, presentes, ramalhetes, fofuras, homenagens, elogio à beleza e adjetivações surreais, é, aos poucos, completamente exterminado, de modo a se esvair da esfera política e se perder de vista, juntamente com as possibilidades de demarcar nosso projeto de luta emancipatória.

Não haveria lógica, do mesmo modo, em um frenesi publicitário que se utilizasse da imagem de negros e negras no dia 20 de novembro, data em que, em razão do assassinato de Zumbi, se demarca o dia da Consciência Negra. Neste dia do ano, paramos, refletimos e nos energizamos para as novas e velhas lutas que ainda temos de enfrentar diante do racismo sistêmico que estapeia nossa cara diuturnamente. O mesmo pode-se dizer do dia do Índio, da visibilidade Trans ou do orgulho LGBT.

Mas, por óbvio, ligar o dia da Mulher a uma campanha de homenagens e exaltação da feminilidade está em consonância com o ideal patriarcal dicotômico de que o político, as revoluções e a racionalidade cabem aos homens, enquanto que a nós, mulheres, cabe a docilidade, a emotividade irracional, a beleza e a delicadeza apática. E, sendo assim, não há nada mais caricato do que sermos representadas neste dia como passivas recebedoras de flores ao invés de parecermos mulheres racionais, politizadas e protagonistas de nossas lutas. Conseguiu-se, por fim, transformar o potencial revolucionário do dia que representa a memória do extermínio de 130 trabalhadoras em greve, no 8 de março de 1957, em uma data em que se exalta exatamente as adjetivações patriarcais a nós compulsoriamente imputadas, tratando-as como elogio.

Assim, ao ler as mensagens nesta manhã, vindas de pessoas bem intencionadas que parecem tentar nos exaltar ao pronunciar os elogios “doce, amável, bela, frágil, esposa, mãe, forte, anjo, sonhadora”, me pergunto o quanto não estariam, em verdade, brindando à perspicácia da sociedade fraternal masculina, que, ao tempo em que desconstrói um dia que é nosso, de luta nossa, de nosso grito e nosso protagonismo, enaltece o fato de que ainda ocupamos todos esses papéis de esposas passivas; companheiras violentadas; mulheres dóceis que baixam as cabeças em obediência; mães que têm seus filhos por obrigação e conveniência; lésbicas escondidas no armário em meio à normatividade do salto alto, da unha feita e da depilação; titias-solteironas com medo da solidão; mochileiras que “estão sozinhas” mesmo estando juntas; meninas com medo de entregar o padrasto pedófilo; mulheres que criam filhos sozinhas, trabalham meio expediente e que têm de lidar com as cobranças sociais, sendo acusadas de “mães desnaturadas”; bêbadas que são consideradas passe livre para estupro; carentes que são violentadas psicologicamente de modo constante mas que acham que o marido não faz por mal; alunas que são assediadas pelos professores em meio a relações de poder…

E então, já cansada dessa cara de pau dos meus colegas mensageiros da alegria, decido, por fim, desligar o celular e me concentrar no trabalho. Foi aí que, ao dar a última espiadela no zap antes de desligar, me deparo com a última: “Parabéns a todas as mulheres. Exceto à Dilma”.

Corri para pegar um martelo e destruir de vez o aparelho.

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Clarissa é professora e doutoranda na área de direitos humanos e desenvolvimento. Pesquisa feminismo, migrações e relações de trabalho. Se calhar, está disposta a largar a academia e viver de sua arte.

Politicário

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2 comentários

  1. Amiga, genial. Tive uma experiencia similar nesse dia. Houve umas palestras para as mulheres na empresa e o assunto era exatamente esse… mulheres poderosas, tripla jornada de trabalho, “voces sao demais”… e eu sem entender o sentido daquilo tudo. Ao final, pedi a palavra a falei que eu gostaria que esse dia nao existisse, pois se ele existe é sinal da relaçao de desigualdade entre homens e mulheres. O dia das mulheres é simplesmente um dia para lembrar que a luta continua… e o caminho ainda é bem longo!

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