Os 100 anos da resposta ao absurdo: o DADA!

Marcel Duchamp “retirando-o (o urinol) de um contexto em que, por serem todas as coisas utilitárias, nada pode ser estético, situa-o numa dimensão na qual, nada sendo utilitário, tudo pode ser estético”.
Marcel Duchamp “retirando-o (o urinol) de um contexto em que, por serem todas as coisas utilitárias, nada pode ser estético, situa-o numa dimensão na qual, nada sendo utilitário, tudo pode ser estético”.

Em fevereiro de 1916, dois anos após eclodir a primeira grande guerra mundial e um ano antes da Revolução Russa, Hugo Ball, Tristan Tzara e Marcel Janco encontraram-se em Zurique, que tinha se transformado em refúgio para artistas de Berlim, Nova York, Paris, Moscou e Budapeste. Com o plano de provocar uma revolução artística e horrorizados com a carnificina da guerra, lá fundaram o Cabaret Voltaire. O espaço era uma combinação de teatro, pub e galeria, onde eram realizados eventos caóticos que misturavam teatro, dança, poesia e música. Estava iniciado o movimento artístico mais internacional até então – o Dadaísmo.

Os manifestos dadaístas se opunham às convenções artísticas que permeavam as linguagens, à arte burguesa e ao controle exercido sobre os artistas. Subvertiam querendo produzir não arte – Dada é ação -, mas intervenções imprevisíveis. O que parecia loucura, na prática, era uma reação que pretendia desmascarar a verdadeira loucura: a desumanidade extrema do modo de produção capitalista que se manifestava, agora, nos horrores da guerra. Fuga do mundo real? Não. O Dadaísmo era o contra-ataque, era o clamor de raiva e indignação, que colocava o dedo nas feridas geradas pelo imperialismo e pela Revolução Industrial para que elas não fossem ignoradas.

A escolha do nome para o movimento tem várias versões. Uns afirmam que “dada” foi encontrado por um estilete apontado ao dicionário francês-alemão, e significava cavalo de pau. Outros dizem que se trata apenas de uma onomatopeia para a fala de bebê, retomando, assim, o incompreensível.

O Dadaísmo tinha na colagem sua principal fonte de expressão. A estrutura básica da colagem é destruir o que já existe para então recompor, num movimento construtivo. Utilizavam elementos como a fotografia, a tipografia e a publicidade. A artista alemã Hannah Höch, por exemplo, com uma foto do Presidente e do Ministro da Defesa posando felizes no verão, publicada em um jornal alemão, fez uma colagem para criticar a hipocrisia do momento. Hannah colocou folhas de árvores sobre eles, aludindo a Adão e Eva e à ausência de inocência nos dois políticos.
Após o término da guerra, o dadaísmo transferiu-se aos centros culturais do mundo. O artista e autor austríaco Raoul Hausmann criticava a Igreja e o Estado. O cineasta alemão, Hans Richter, utilizava das inovações do movimento em seus filmes experimentais.

dada
Ícone do movimento, o francês Marcel Duchamp contestava a veneração da obra de arte e criticava as reproduções industriais que transformavam a arte em produto do consumismo. “Ready-made” foi o termo criado por ele para os objetos do cotidiano que expunha em galerias. Duchamp desejava chamar atenção aos preconceitos que estavam por trás das expectativas acerca do que era arte e do que era cotidiano.

Assim, além de gritos e socos contra os horrores do capitalismo, as experiências Dada proporcionaram convulsões artísticas como a Arte conceitual ou Arte concreta e o Surrealismo.

No ano em que completa 100 anos, o movimento ganha celebrações em vários museus. No Brasil, a cidade de Goiânia, onde se situa, há anos, o Cabaret Voltaire Goiânia, verá a exposição “Dadá itinerante”, e será palco de saraus e performances.

“Não queremos contar as janelas maravilhosas da elite, pois Dadá não está para ninguém e queremos que toda a gente compreenda isso. Aí é a varanda de Dadá, garanto-lhes. Dela podem ouvir-se as marchas militares, dela se pode descer, rasgando o ar como um serafim e ir mijar num urinol público e compreender a parábola. Dadá não é nem loucura, nem sabedoria, nem ironia, olhe bem para mim, honesto burguês.” afirmava o manifesto lançado em 1916. E, desde então, permanece como a tentativa de vanguarda dos artistas em derrubar o aparato da arte posta. O Dadá, com sua força vital e eternamente jovem, nos mostrou que, se o mundo dito racional está grotesco e absurdo, devemos ser mais humanos e permissíveis.

Curta a página do Pandora Livre no Facebook para acompanhar nossas publicações.

hanna-brito

Pela emancipação humana, é na arte que encontra os estímulos sensíveis que tanto necessita. Em horas de embrutecimento, é graduanda em Direito pela Universidade Federal da Paraíba.

Artecétera

, ,

Deixe um Comentário

Todos os comentários são de responsabilidade exclusiva dos/as leitores/as. Serão deletadas ofensas pessoais, preconceituosas ou que incitem o ódio e a violência.

Comente usando o Facebook

1 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *