Cabeleireiros: gênero, sexualidade e política

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Foto: Pixabay.

Eu nunca gostei de cortar o cabelo. Nunquinha. Lá em casa era a maior confusão. Eu relutava até o último momento possível, até o cabelo fazer cacho atrás da orelha e Mainha reclamar. Então, muito desgostoso, praticamente arrastado, eu ia com Rafa e Mainha, na infância, ou Rafa e Painho, já na adolescência, ao cabeleireiro. Cortava bem baixinho, mas bem baixinho mesmo, para demorar a voltar. Não tinha esse negócio de corte da moda, vaidade ou estilo. A resolução era pragmática: quanto mais baixo, mais tempo demoraria a voltar ao salão.

Só mais velho, entendi que dentre as razões de eu detestar ir ao salão durante a adolescência, estava o fato de eu ser viado – com i mesmo, bicha. Os ambientes hiper-masculinizados, como os salões de barbeiro que meu pai frequentava, pesavam sobre minhas inseguranças. As conversas, as opiniões, os assuntos serviam sempre de lastro para o exercício de uma masculinidade hipertrofiada, que deveria ser tão frágil e insegura de si como eu mesmo era inseguro de mim. Claro, eu não compreendia o que acontecia, mas sentia. Sentia, por exemplo, que aqueles eram ambientes diferentes dos salões a que Mainha nos levava quando éramos mais novos. Eram os salões que ela mesma frequentava e em que nós éramos atendidos por umas bichas maravilhosas. Minha primeira lembrança pessoal de uma mulher trans – chamávamos “transformista”, por causa do programa de calouros de Sílvio Santos – veio de um salão de uma galeria em Piedade. Nesse mesmo salão, havia Vivi, um cabeleireiro espirituoso e altivo. Rafael, certa vez, resolveu perguntar a Vivi o porquê de ele se chamar assim. Vivi não soube bem o que responder. Rafael, entretanto, não teve dúvida: ” – é porque é viado duas vezes!”. ” – Mas Rafa, você está dizendo isso da sua tia?”. Rimos muito. Não sabia Vivi que duas vezes viados seríamos nós dois, os irmãos.

Bem, eu cresci. Continuo evitando os salões de cabeleireiro, continuo esperando os cachos atrás da orelha ou as reclamações de Mainha, Ana Lia ou Mariana para eu tomar vergonha e me dirigir à tesoura. Frequento já há alguns anos o mesmo salão em Olinda. É perto da academia e a galerosa corta lá. É um lugar barato, sem frescura. Um dos cabeleireiros sempre me conta do seu acidente de carro, de sua saúde, de suas caminhadas na praia – os assuntos correspondem aos meus, ao meu acidente do braço, à minha tentativa de ser saudável e ir à academia. Outro cabeleireiro me fala de suas desventuras amorosas e me pede conselhos jurídicos sobre uma casa que ele financiou junto com a ex-mulher, que meteu o pé na bunda dele e nunca pagou uma prestação sequer. O dono do salão, também oficial da tesoura, fala sempre de São Paulo. Sabe que vou lá, pergunta sobre a cidade, diz que sente saudade do tempo em que morou na Desvairada e fez o curso do SESC – acho – para cabeleireiro. Diz que gosta de FHC e não gosta do PT. Que quem manda no país é o PMDB e que tudo está muito ruim. Bom mesmo é o carnaval de Olinda. Eu discordo dele sobre FHC – com cuidado, ele tem a navalha e eu o pescoço, afinal – concordo em tudo sobre o carnaval e a conversa segue.

No salão, as demonstrações de hiper-masculinidade às vezes aparecem. Há sempre um cliente ou outro mais chato. Mas hoje eu sou mais velho, engrossei o talo, como diria minha mãe, e me incomodo menos, dou algumas respostas indigestas ou eles se constrangem. Os três cabeleireiros sabem que sou casado com Iran. O mundo é um umbigo, Recife e Olinda são o umbigo do umbigo, e outras pessoas também sabem. Enfim, a coisa ficou, de algum jeito, ainda que com alguns aborrecimentos, mais ou menos resolvida. Mas agora eu me incomodo com algo que na adolescência me passava absolutamente despercebido: a forma como posições políticas severas e conservadoras, gritadas aos quatro cantos do salão, performatizam aquela masculinidade estridente. “É tudo ladrão”, “Tem tudo que ir pra cadeia” ou “Lula é o maior ladrão de todos”. Essas afirmações, com as quais estamos acostumados, são engrossadas pela voz, pela gestualidade, e acompanhadas pelo público. São um saco. São também performances de classe, claro, tomadas de posição de classe. Em alguns momentos, enquanto o playboy ou o pretenso coronel – sim, o jeitão é aristocrático – manifesta-se contra “essa gente ignorante que vota no PT e recebe bolsa família”, é claramente perceptível o desconforto da moça que lava os cabelos e limpa o chão. Ela, no mínimo, conhece algumas pessoas beneficiárias da política de assistência social e distribuição de renda que ajudou a mudar a cara do país na última década. Não gosta do que ouve, mas vai dizer o quê?

Eu costumo não dizer muita coisa. Faz tempo que eu decidi que precisava escolher, dentre a infinitude das possibilidades, as brigas que eu preciso brigar. Brigo na Universidade, brigo na sala de aula, brigo na mesa do bar, brigo nas organizações de que participo. Mas brigar no salão ou na padaria… Bem, esquenta demais o juízo e eu tenho uma tese a escrever. Jesus-Maria-José, que sufoco. Termino ouvindo aquele blábláblá horrendo e deixo o salão com vontade de nunca mais voltar, rogando ao calendário para que demore muito, muito, muito para que os cachos se formem atrás da orelha e para que Mainha, Mári ou Aninha venham se queixar.

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Roberto Efrem Filho é professor da UFPB e doutorando em Ciências Sociais junto à Unicamp. Pesquisa narrativas sobre violência e criminalização mas gosta mesmo é do carnaval de Olinda.

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