Tício e Mélvio no Congresso Nacional

“Tício” e “Mélvio”. Foto: Luís Macedo/Câmara dos Deputados | fotospublicas.com.

Foi o inigualável, genial e inesquecível mestre Vital do Rêgo, o qual deu à minha turma na UEPB, em Campina Grande, a honra de ser a última em que lecionou antes de se aposentar da cátedra, quem nos apresentou o mais clássico e lúdico exemplo do tribunal do júri.
Dizia-nos ele que Tício, réu, ao sair de casa pela manhã para trabalhar, passou um ano, por todos os dias, ouvindo de seu vizinho Mélvio, vítima, injustificados impropérios, xingamentos e ofensas contra si dirigidos:

– Bandido! Ladrão! Safado! Bandido! Ladrão! Safado! – incessantemente gritava Mélvio, tresloucado, sem ter razão nenhuma para tal.

Certo dia, acordando de sonhos intranquilos, o réu perdeu a fleuma e, ao passar pelo portão da casa da vítima, deixou de lado a impassibilidade com que se portara durante todo o ano de ultrajes sem motivo e, sacando um revólver, alvejou o vizinho canastrão, matando-o.

No julgamento, o advogado de Tício, na réplica à acusação, passou cinco minutos ininterruptos repetindo, como um papagaio, a mesma palavra:

– Justiça! Justiça! Justiça! Justiça! Justiça! Justiça!…

O magistrado, logicamente impaciente com a cantilena do causídico, interrompeu-o:

– Doutor! Pare com isso, já! Está insuportável! Defenda seu constituinte! Caso contrário, terei-o conduzido a um manicômio!

O tribuno retorquiu:

– Senhor Juiz, se durante apenas cinco minutos repetindo a mesma palavra, que nem xingamento é, fiz com que Vossa Excelência se impacientasse e ameaçasse me internar, imagine o que sofreu Tício, suportando insultos de baixo calão por um ano inteiro sem cessar!

O saudoso professor Vital, dado o exemplo acima, nos ensinou que Tício foi absolvido unanimemente pelo júri, por inexigibilidade de conduta diversa, causa excludente de culpabilidade do crime, como nos mostram os mais ciosos lentes de Direito Penal.

Dessarte, guardadas as devidas proporções, pergunto: há, no cuspe de Jean Wyllys, a fleuma perdida de Tício? Claro que sim!
Há, nas provocações salivares de Bolsonaro, repetidas maquiavelicamente há cinco anos contra o deputado socialista (que se manteve elegantemente inerte por todo esse tempo, superando Tício, pois), o sadismo, a falta de higidez mental e a má-fé de Mélvio? Sim! Sim! Sim!

olimpio-rocha

Nas horas não vagas, é advogado popular, professor universitário e trocador do botijão de água mineral. Nas vagas, vagueia.

Artecétera

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2 comentários

  1. Mas…. Será que o Bolsonaro teve durante 5 anos um comportamento de Mélvio? E deixo claro não suporto o Bolsonaro!

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