Quando a política ameaça as mulheres

Diante de todo o contexto político nacional, a gente pôde perceber como tudo aquilo que acreditamos sobre a política, sobre o direito e sobre o Estado é frágil. Principalmente a geração pós-Constituição de 88, que garantiu muitos desses direitos. Você que está lendo provavelmente só reconhece o mundo desta forma que vemos, ou vimos há bem pouco tempo.

Sempre odiei textos abstratos, que não tinham um direcionamento, que falavam pra todas/os e pra ninguém, como se houvesse um mundo homogêneo que compreendesse da mesma forma, como se as pessoas não aplicassem aquilo lido nas próprias vidas ou sei lá o quê. Portanto, digo: sou eu, Tayse, falando pra você, dentro do seu mundo, das suas percepções, sobre como eu e algumas mulheres (transgênero e cisgênero)1 que conheço – já que não sou construída genuinamente, permaneço em troca constante e mútua com outras – temos sentido essa maré ressacada política.

Há um tempo já não mais acreditava no discurso de democracia, as comunidades tradicionais, os povos indígenas, quilombolas, a juventude negra perseguida pela guerra ao tráfico….Essas e esses já não estavam em uma democracia, já não usufruíam do título de cidadãs e cidadãos (será que já o exerceram?), a cidadania, o direito, a política, colocam com foco central um sujeito bem determinado, né? Homem, cisgênero, branco, hetero e por aí vão todas as características que assumem o lado positivo nas dicotomias.

Mas vê só: a estrutura do mundo e sua dinamicidade dava margem pra que pensássemos que algumas coisas estavam avançando, as cotas nas universidades, as políticas de distribuição de renda, essas ações que nunca foram horizontes de luta, que nunca foram o que a população subalternizada de fato precisava, nos golpearam muito antes, em um falso avanço, e como diria um velho barbudo, o ciclo do capitalismo é esse, avança e explora para logo em seguida vir uma resposta (não falo apenas em violações de direitos, esse muito mais serviu pra lado de lá do que pro povo, falo em violação de vidas, violações de culturas, violações de dignidade).

Mas esse pequenino desabafo angustiado não é mais uma análise de conjuntura política, pelo menos não assim se pretende, são algumas palavras que – como tem sido minha vida de um tempo pra cá – tentam inserir a perspectiva de nós, mulheres, em todos os espaços, mudar a rotação mesmo, de um eixo de discurso, de voz, de posição e, principalmente, de poder.

A votação na Câmara para a aprovação do Impedimento da Presidenta Dilma Rousseff foi seguida por argumentos de homens que pretendem conservar e, quando não, retroceder o Brasil atual. Deus, a família e a moral são usados como justificativas para esse poder, que cuspidas não tocam.

Em 27 de Agosto, deste ano, ocorreu a votação do projeto que cria a Comissão da Mulher, do Idoso, da Criança e do Adolescente, da Juventude e Minorias. A autora da proposta é a deputada Elcione Barbalho (PMDB-PA). Na seção presidida por Eduardo Cunha (PMDB/RJ), foi retirada da votação a representatividade de gênero, retomando-se a votação nominal, depois de o relator  João Campos (PRB/GO) retirar da atribuição da comissão de Direito da Mulher a questão dos direitos do nascituro, colocando-a para a comissão de Seguridade Social e Família. Tal fato acabou gerando polêmica com integrantes da bancada feminina, pois abriria espaço para a discussão de um aborto legal e seguro.

Bem, o debate não vai ser diretamente sobre a comissão, sobre os interesses partidários (apesar de tudo ter a ver), mas sim sobre o desespero, a palavra é essa: desespero.  O presidente da Câmara de costas, em sua complacência, em um verdadeiro show de horrores, empurrava uma votação que feria o regimento, enquanto as mulheres gritavam “golpista, golpista!”- sim, elas, histéricas. Na mesma hora, na praça Ramos, em São Paulo, mulheres se reuniram em ato contra o golpe.

Esse é o momento político de táticas e estratégias, em que, ora a presidenta Dilma Rousseff é taxada de descontrolada, com “perdas de condições emocionais”, além dos boatos que circundaram todo seu mandado de masculinizada e sem carisma, e, ora a mídia trata de ressaltar aspectos estéticos da esposa do vice-presidente Michel Temer, que diante de um golpe institucional em curso tem sido aclamada como a primeira dama, “Bela, recatada e do lar”.

Todas nós, com nosso trabalho doméstico, com nossa função de socializadoras da família, com nosso corpo, fazemos parte de um capitalismo simbólico. Esse não gera um valor econômico, não gera dinheiro, mas agrega aquilo que o gera. Marcela Temer aparece nesse momento político com essa função, como um acessório que acrescenta a imagem de Temer e vejam só: a mídia machista e misógina reforça exatamente características opostas às da atual presidenta.

Já a deputada Raquel Muniz (PSD/MG) celebrou um voto fervoroso no dia 17 último, e teve seu marido prefeito de Montes Claros, a quem dedicou o voto, preso, é, sim, uma golpista, que mais me parece estar contribuindo com o patriarcado e a política sexista (como eu e muitas das mulheres que estão lendo esse texto já fizemos e ainda fazemos).

A política nacional é machista. Estão tirando nossos direitos políticos em alguns momentos simbolicamente, em outros momentos nos estuprando politicamente, em que os gritos e os cuspes têm sido nossas reações. Estão querendo nos colocar “no nosso devido lugar”, retroceder direitos políticos concedidos desde século XX ainda insuficientes. Digo querendo porque não conseguirão!

O debate atual perpassa por um aborto legal e seguro, pelos direitos trabalhistas, por creches nas universidades, pelo fim do agronegócio, da guerra contra o tráfico… Todas essas pautas atingem substancialmente as mulheres e que nós, possamos dizer em que lugar queremos estar, sob que política nós atuamos, não por mera representatividade, mas porque constituímos a sociedade e, portanto, devemos constituir os espaços políticos. Nos organizemos. E aqui, não falo mais da Câmara dos Deputados (sim, no masculino), falo dos nossos lugares públicos, do ônibus, das ruas, das esquinas e de onde quisermos estar. É preciso estarmos atentas e fortes.

 

tayse-palitot

Sonha em plantar tudo que come e construir um mundo que a trilha seja “equal rights” de Peter Tosh.

Politicário

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