Poesia para enfrentar o dia

Manifestação em Curitiba contra o impeachment - Mídia Ninja
Manifestação em Curitiba contra o impeachment – Mídia Ninja

MÃOS DADAS

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

—–

NÃO TE RENDAS

(Mario Benedetti)

 

Não te rendas, ainda é tempo
De se ter objetivos e começar de novo,
Aceitar tuas sombras,
Enterrar teus medos

Soltar o lastro,
Retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,
Continuar a viagem,
Perseguir teus sonhos,
Destravar o tempo,
Correr os escombros
E destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio queime,
Ainda que o medo morda,
Ainda que o sol se esconda,
E o vento se cale,

Ainda existe fogo na tua alma.
Ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua e teu também o desejo
Porque o tens querido e porque eu te quero
Porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não existem feridas que o tempo não cure.
Abrir as portas,
Tirar as trancas,
Abandonar as muralhas que te protegeram,

Viver a vida e aceitar o desafio,
Recuperar o sorriso,
Ensaiar um canto,
Baixar a guarda e estender as mãos
Abrir as asas
E tentar de novo
Celebrar a vida e se apossar dos céus.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio te queime,
Ainda que o medo te morda,
Ainda que o sol ponha e se cale o vento,
Ainda existe fogo na tua alma,
Ainda existe vida nos teus sonhos
Porque cada dia é um novo começo,
Porque esta é a hora e o melhor momento
Porque não estás sozinho, porque eu te amo

—–

CANÇÃO DO NÃO TEMPO DE LUA

(Mário Lago)

Amada, não me censure, se sou de pouco falar,
Nem se esse pouco que falo não faz você suspirar.
É que é tempo de vida feia, de se morrer ou matar.
De sonho cortado ao meio, de voz sem poder gritar.
De pão que pra nós não chega, de noite sem se acabar.
Por isso não me censure, se sou de pouco falar…

A criança é bonito? É!
A mulher é bonito? É!
A lua é bonito? É!
A rosa é bonito? É!
Mas a criança só cresce, se a bomba quiser!
Homem sonha e faz seu sonho, se a bomba quiser!
Não é tempo de ver lua, nem tirar rosa do pé!

Amada minha, não chore se nunca falo de amor,
Nem se meu beijo é salgado, é que é beijo chorado em dor.
É tempo de vida triste, de olhar o seu com pavor,
De mão pro último gesto, de olhar pra última flor.
De verde que era esperança trazer desgraça na cor.
Por isso, amada, não chore se nunca falo de amor

A criança é bonito? É!
A mulher é bonito? É!
A lua é bonito? É!
A rosa é bonito? É!
Mas a criança só chega a homem, se a bomba quiser!
Homem sonha e faz seu sonho, se a bomba quiser!
Não é tempo de ver lua, nem tirar rosa do pé!

Amada, não vá embora se eu trouxe desilusão
Se aumento sua tristeza, tão triste a minha canção.
É tempo de fazer tempo, de pegar tempo na mão
De gente vindo no tempo em passeata ou procissão,
No mesmo passo de um sonho pra bomba dizendo: NÃO!
Amada, não vá embora, mudou a minha canção!

Criança é bonito? É!
Mulher é bonito? É!
Lua é bonito? É!
Rosa é bonito? É!
Pois a criança vai crescer porque a gente quer!
Homem vai fazer seu sonho, porque a gente quer!
Vai ser tempo de ver lua…
E de colher rosa do pé!

Brasília- DF- Brasil- 19/04/2016- A Presidenta Dilma Rousseff desceu a rampa do Palácio do Planalto para cumprimentar mulheres que estavam em frente ao Palácio e recebeu flores. Foto: Lula Marques/ Agência PT

Brasília- DF- Brasil- 19/04/2016- Foto: Lula Marques/ Agência PT

—–

DESEJOS VÃOS

(Florbela Espanca)

 

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até a morte!

Mas o Mar também chora de tristeza …
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras … essas … pisa-as toda a gente!

—–

VOU VIVER (1949)

(Pablo Neruda)

Não vou morrer. Saio agora

neste dia cheio de vulcões

para a multidão, para a vida.

Aqui deixo arrumadas estas coisas

hoje que os pistoleiros passeiam

com a “cultura ocidental” nos braços,

com as mãos que matam na Espanha

e as forcas que oscilam em Atenas

e a desonra que governa o Chile

e paro de contar.

Aqui fico

com palavras e povos e caminhos

que me esperam de novo, e que batem

com mãos consteladas em minha porta.

—–

O SISTEMA

(Eduardo Galeano)

Os funcionários não funcionam.
Os políticos falam mas não dizem.
Os votantes votam mas não escolhem.
Os meios de informação desinformam.
Os centros de ensino ensinam a ignorar.
Os juízes condenam as vítimas.
Os militares estão em guerra contra seus compatriotas.
Os policiais não combatem os crimes, porque estão ocupados cometendo-os.
As bancarrotas são socializadas, os lucros são privatizados.
O dinheiro é mais livre que as pessoas.
As pessoas estão a serviço das coisas.

—–

POR QUE CANTAMOS

(Mario Benedetti)

Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos

se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio está soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota

cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta

cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a cada canção se torne cinzas.

 

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Diana é defensora pública e mestre em desenvolvimento regional. Escrever no Pandora Livre é parte do seu plano de se tornar uma burocrata descolada.

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1 comentário

  1. Parabéns pela revolta com palavras, Diana !

    ¡Oh, qué día tan triste en Granada,
    que a las piedras hacía llorar,
    al ver que Marianita se muere
    en cadalso por no declarar!
    *
    Todavia

    ¡Yo soy la Libertad porque el amor lo quiso!
    ¡Pedro! La Libertad, por la cual me dejaste.
    ¡Yo soy la Libertad, herida por los hombres!
    ¡Amor, amor, amor, y eternas soledades!

    F García Lorca.

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