Semana do povo do cigano: uma luta de todas e todos

A partir de 24 de maio de 2007 é comemorado oficialmente o dia nacional do cigano, uma data que para a maioria da população pode passar despercebida, mas que foi celebrada por esses povos que habitam o Brasil desde o final do século XVI. Digo povos por se tratarem de sete etnias presentes em todo mundo, sendo que os mais comuns no Brasil são os roms, sintos e calons, aproximadamente um milhão de pessoas.

Para o senso comum, a existência dos povos ciganos, quando é percebida de forma menos negativa, está associada ao exótico, em face das roupas coloridas, às leituras de mão ou ao jogo de cartas, assim como às danças. Contudo, por séculos, a existência de tais povos esteve, assim como ainda está, associada a condutas deploráveis. Os ciganos são vistos como pessoas em que “não se deve confiar” ou das quais “se deve esconder as mãos para não se ter os anéis roubados”. Confesso que sinto muita vergonha de ter pensado dessa forma um dia. Hoje sei que o nomadismo não é algo inerente ao povo cigano, mas sim algo imposto a partir do padrão eurocêntrico ocidental de sociabilidade, tornando-se, portanto, uma necessidade para poder sobreviver.

Como aprendi com Maria Jane, liderança cigana da Paraíba, pessoas ruins existem em todos os lugares, mas infelizmente, ao se falar em povo cigano, já surge a presunção quase que absoluta de que são pessoas perigosas. Reitero que não são, e sou muito agradecido por hoje coordenar um projeto de extensão nas Faculdades Integradas de Patos que faz Assessoria Jurídica Popular à Associação calon, de Condado-PB. Tenho a chance de me reconstruir enquanto ser humano, enquanto militante e profissional, e ainda de poder contribuir para essa desconstrução e ao mesmo tempo dar visibilidade à causa e resistência cigana.

Dia 20 de maio de 2016 foi um dia histórico para a luta e resistência cigana! Em tempos em que as mulheres foram excluídas do primeiro escalão do governo Temer, tivemos uma mulher e líder do movimento cigano, Maria Jane, palestrando para uma plateia do curso de direito da cidade de Patos, interior da Paraíba, ao lado de outra mulher guerreira, Jamilly Cunha, doutoranda em antropologia pela UFPE.

Conviver e respeitar os povos tradicionais, sobretudo os povos ciganos, é algo inerente à revolução brasileira, à luta pela soberania e emancipação dos povos historicamente oprimidos. O fim dos ministérios da cultura, dos direitos humanos e da promoção e igualdade racial foi um golpe brutal na luta dos ciganos e ciganas que, nos últimos anos, ainda que com recursos restritos, conseguiram finalmente acesso às políticas públicas e visibilidade.

Derrotar o golpe dos setores conservadores e fascistas da direita brasileira é dar de volta aos povos tradicionais o direito de poderem lutar por uma existência digna, de serem respeitados dentro das suas diferenças e de usufruírem das riquezas produzidas pela classe trabalhadora.

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Amante de geopolítica, história e café, professor de Direito do Trabalho e Direito Internacional Privado, advogado nas horas vagas.

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