No peito dos burocratas também bate um coração

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Tinha tudo para ser só mais uma palestra. O tema eram os números sobre acesso à justiça e vitimização no Brasil, o expositor era um técnico do IBGE, os espectadores eram pesquisadores e funcionários públicos, o lugar era o auditório de uma universidade. Nada, portanto, prenunciava a extraordinariedade do que estava por vir.

Ao longo de quarenta e cinco minutos, aquele que deveria desempenhar o insosso papel de funcionário de um instituto oficial revelou-se um trabalhador cujos olhos brilhavam ao demonstrar todo o esforço envolvido na pesquisa domiciliar objeto de sua exposição. A cada nova variável apresentada, surgia o indisfarçável orgulho de fazer parte de uma corporação que enfrentava todo tipo de obstáculos para coletar as informações que, como ele próprio falava, possibilitariam aos brasileiros conhecer melhor quem são eles e o que é o seu próprio país. Dentre as barreiras que interceptaram a pesquisa, foram apontadas várias que nós, espectadores ávidos por números, jamais ponderaríamos: porteiros que se recusavam a abrir passagem aos pesquisadores, árvores caídas que impediam o acesso a rincões no Amazonas, elevadores enguiçados, jipes atolados.

Ao final da exposição, quando já tinha ficado muito claro que as porcentagens e tabelas que o datashow mostrava eram apenas a representação gráfica do empenho de centenas de pessoas, os dizeres do último slide surgiram como aquelas blusas que os jogadores de futebol usam por baixo do uniforme do time para serem mostradas após marcarem um gol: “Aqui é IBGE!”

Tinha tudo para ser só mais uma palestra. Mas não foi. Naquele momento, pude refletir sobre como temos nos acostumado às posturas blasé e às atitudes desinteressadas dentro do serviço público. É como se aqueles que escolhem servir à coletividade como profissão naturalmente o fizessem porque querem trabalhar pouco, ganhar muito, jamais ser demitidos e exercer suas atividades diárias de forma medíocre. É como se passar num concurso fosse o passaporte para uma carreira em que a proatividade será tolhida por decretos, e onde qualquer lampejo de criatividade será fulminado pela rotina emburrecedora.

Por mais que seja apenas o meio necessário para vir a  exercer um cargo, muitas vezes o concurso público é visto como o fim da linha de uma trajetória profissional. Passar no concurso, portanto, chega a ser considerado mais importante do que o próprio exercício da função pública. Essa lógica, no entanto, representa uma clara inversão dos fins pelos meios: afinal, que tipo de funcionário será esse que se preocupa apenas com os meses – ou poucos anos – de estudos  para o concurso (muitas vezes limitados a apostilas e técnicas de memorização acríticas) e jamais reflete com seriedade sobre o trabalho que ele, uma vez aprovado, desenvolverá diariamente por longas décadas de sua vida?

Segundo Thiago Hansen, é parte da tradição política brasileira a ascensão histórica de certas classes de funcionários públicos. Na Primeira República, foi cunhada a expressão “República dos bacharéis”, o prestígio dos títulos de nobreza cedeu lugar aos raros diplomas de Direito ou da Academia Militar. Depois, no final da década de 1920, foi a vez dos jovens militares encamparem o movimento do tenentismo. Num momento posterior, ascenderam os engenheiros e administradores do IBGE. A partir da década de 1990, surge a figura do concurseiro, que, apesar de não integrar uma classe determinada de profissionais, é admirada por seu objetivo de querer vencer na vida pela meritocracia, e não por relações escusas de compadrio.

Um processo seletivo sério para cargos e empregos públicos, permitindo que qualquer pessoa possa se candidatar a participar da administração do Estado, é uma garantia essencialmente republicana. Afinal, se a República é definida como “coisa pública”, nada mais correto do que integrar os cidadãos ao serviço público através de seleções impessoais e abertas a todos.

Acontece que realizar uma seleção pública livre de negociatas e jogos de cartas marcadas não garante, por si só, que teremos nos quadros públicos pessoas dedicadas, motivadas e identificadas com o seu trabalho. E talvez seja mesmo por isso que frequentemente nos deparemos com funcionários de atitudes e projetos pessoais de vida tão distanciados da função de servir à coletividade. Os exemplos são os mais diversos: atendentes que não se esforçam para escutar o outro e logo se apressam em afixar um cartaz com o fatídico “Desacato é crime!”; defensores públicos que detestam explicar seu trabalho a pessoas sem escolaridade; juízes extremamente inseguros ou que não compreendem as consequências sociais de suas determinações; promotores que se veem como o braço jurídico da Polícia etc.

Além do problema do descolamento entre a vocação e as atribuições do cargo, a rotina burocrática também pode desgastar o ânimo dos profissionais mais empenhados. Até gente da mais alta verve, como o poeta João Cabral de Melo Neto, sofreu maus bocados com os dias entediantes da burocracia. No poema Difícil ser funcionário, João Cabral –  que além de escritor era diplomata – confessa a seu colega Carlos Drummond de Andrade a angústia que lhe causavam, numa segunda-feira, a “dor das coisas”, “o luto desta mesa”, “o regimento proibindo assovios, versos, flores”.

Mas por trás dos birôs das repartições não existem apenas carimbadores sonolentos, recepcionistas lacônicas ou autoridades pedantes. Para não dizer que só falei de espinhos, lembro que há, sim, muitos funcionários vocacionados espalhados pelos edifícios governamentais. Além do técnico do IBGE que mencionei no início deste texto, outro exemplo de servidor que sempre me chamou a atenção é o juiz Gherardo Colombo, um dos responsáveis pela Operação Mãos Limpas, que julgou casos de corrupção na Itália entre 1992 e 2005.

Gherardo Colombo, após se convencer de que apenas a educação poderia funcionar como arma contra a corrupção, largou seus mais de 30 anos na magistratura (carreira em que ainda poderia continuar por mais 14 anos) para se dedicar a palestras em escolas. O ex-juiz fundou a associação Sulle Regole (Sobre as regras) e passou a visitar escolas em toda a Itália para conversar com os estudantes e convencer-lhes da importância de respeitar algumas regras e a evitar pequenas corrupções para garantir a boa vida em sociedade. Em suas exposições, Gherardo Colombo debate a corrupção com os jovens a partir de temas que fazem parte do seu cotidiano: plágios em trabalhos escolares, ameaças nas brigas com irmãos mais novos, contratação de serviços domésticos sem recibos. Ao defender a importância dos impostos, o ex-magistrado lembra aos estudantes de escolas públicas que o financiamento de seus estudos é feito a partir do pagamento de tributos e, ao fim das conversas, afirma que ir a uma escola de qualidade e estudar é a única forma de garantir que seremos cidadãos livres, pois quem não tem conhecimento não é capaz de fazer escolhas conscientes ao longo da vida.

E não poderia haver mais verdade nessa afirmação final de Gherardo Colombo: quanto mais se conscientizarem sobre a essência da função de prestar um serviço ao público, mais as pessoas  deveriam refletir sobre o significado de escolher ser funcionário público. Não é só com desalmados penduradores de crachás (ou com portadores de rebuscadas carteiras funcionais) que funcionam as instituições: no peito dos burocratas, acreditem, também bate um coração.

* Dedico este texto a Cimar Azeredo, servidor do IBGE, e a todos os funcionários públicos que se orgulham de trabalhar em prol da coletividade.

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Diana é defensora pública e mestre em desenvolvimento regional. Escrever no Pandora Livre é parte do seu plano de se tornar uma burocrata descolada.

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4 comentários

  1. Há muitos patriotas entre os funcionários públicos. Gente que luta de verdade por um Brasil melhor. E luta do lado de dentro do “sistema”. E enfrentam as mais diversas adversidades.
    O problema é que o que se destaca é a banda podre…

  2. Realmente o Cimar Azeredo está no hall desses servidores que você, Diana, descreve tão bem. Trabalho diretamente com ele e acho louvável o seu jeito de conduzir a sua equipe e os trabalhos que desenvolve no IBGE. No ano em que o IBGE comemora 80 anos de existência, o Cimar está comemorando 35 de dedicação ao instituto. Parabéns ao IBGE e ao Cimar pela contribuição que vem dando ao IBGE por todos esses anos e com o entusiasmo de sempre.

  3. Decerto temos várias pessoas boas no serviço público, mas não há estímulo nenhum para manter apenas estes. Se eu fosse um sujeito interessado apenas no salário e sem vontade de trabalhar, não aconteceria nada comigo. Poxa, até se eu fosse corrupto não aconteceria nada, pois os órgãos de fiscalização interna são terríveis. Só a PF que pega corruptos, infelizmente.

    E aí quando alguém fala em tentar corrigir isso, a classe inteira chia. Os bons têm medo de quê?

  4. O funcionário público faz seu trabalho… o que existe é a caricatura editada pelo mídia e continuada como eco por aqueles que na maioria das vezes, enxerga tudo superficialmente… vide a palavra usada “carimbadores”…. sonoooo

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