A ignorada morte de João Havelange durante as Olimpíadas

Jean-Marie Faustin Godefroid du Havelange ou João Havelange, como ficou conhecido, morreu na ultima terça-feira 16 de agosto de 2016 aos 100 anos e foi certamente o maior dirigente esportivo da história do Brasil, o que necessariamente não significa dizer que Havelange foi o melhor.

Enquanto era diretor da extinta Confederação Brasileira de Desportos (CBD), e atual Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a seleção brasileira de futebol conquistou suas três primeiras copas do mundo, sendo a primeira em 1958, ano em que assumiu o cargo.

Mas foi apenas ao alcançar seu maior objetivo que o dirigente marcou seu nome na posteridade: em 1976, foi eleito presidente da FIFA, único presidente não europeu até hoje, assumindo a entidade que possuía como sede um simples sobrado, e entregando ao seu sucessor um prédio de 6000 metros quadrados em uma área nobre de Zurique, em 1998.

Como presidente da Fifa, promoveu a ampliação do número de associados, criou campeonatos para jogadores de categorias de base, futsal e feminino, além de dobrar o número de vagas para a Copa do mundo, espalhando o esporte para os quatro cantos do planeta, com destaque para a inclusão de países como China, Estados Unidos e Japão (que foram fundamentais na globalização do futebol e na transformação do mesmo no que é hoje, um espetáculo esportivo, midiático e financeiro).

Tais feitos podem ser facilmente utilizados como argumentos para defender a competência do brasileiro como dirigente, que tinha faro para os negócios e visão ampla das potencialidades da categoria. Porém, seu legado é o que dá margem às manchas em sua trajetória.

O ex-cartola conseguiu apoio para eleger-se presidente da FIFA ao perceber que confederações menores não recebiam a mesma atenção que centros mais estruturados futebolisticamente. Sendo assim, aproveitou o fato de ser presidente da CBD para promover amistosos da seleção brasileira em diversos países, usando Pelé como seu principal garoto propaganda. Havelange abria mão do cachê e da renda desses jogos em troca de apoio político.

O jornalista britânico  Andrew Jennings, em seu livro Foul!, Aborda a amizade de Havelange com Horst Dassler, então diretor da Adidas, que resultou em uma parceria que perdura até hoje entre a marca e a FIFA, que teve inicio ainda na campanha do brasileiro a presidente da entidade, quando Dassler teria enviado envelopes com dinheiro a delegados que estariam em dúvida sobre suas intenções de voto, com intuito de “incentivá-los a votar em Havelange.

Atualmente, a FIFA possui 211 países filiados, mais do que a ONU, com 193. Boa parte destes filiados são fruto da política expansionista de Havelange, que abriu as portas da entidade em troca de favores com intuito de prolongar sua permanência no cargo mais importante do futebol.

Porém, o maior escândalo da vida do dirigente veio à tona quando a justiça da Suíça descobriu o recebimento de propina por parte de Havelange e de Ricardo Teixeira, então presidente da CBF e atualmente ex-genro do cartola. De acordo com as investigações, a dupla recebia dinheiro da empresa de marketing esportivo ISL, que pertencia ao já citado Horst Dassler e era detentora dos direitos de transmissão do mundial de 2002, mas que acabou falindo um ano antes, despertando a atenção da justiça suíça e resultando na denúncia contra os brasileiros. As investigações revelaram que a quantia movimentada durante a operação ilícita foi de 140 milhões de dólares.

O escândalo ocorreu quando Havelange já não era mais presidente da FIFA. Entretanto, a promessa do Comitê Olímpico Internacional (COI) – do qual Havelange era membro desde 1963 – de não levar à frente o processo contra o dirigente caso o mesmo renunciasse a seu cargo no comitê, fez com que o brasileiro saísse dos holofotes.

Apesar de sua morte ter ocorrido em meio à realização dos jogos olímpicos em sua cidade, e da importância que teve na articulação da escolha do Rio de Janeiro como sede, o COI se negou a prestar homenagens ao seu ex-membro, não deixando suas bandeiras a meio mastro e nem citando Havelange em nenhum momento.

Havelange foi a prova de que sempre é possível manchar uma biografia e que nem todos entram para a história pela porta da frente.

Nota: É possível perceber em maiores detalhes os traços de personalidade desse controverso personagem em sua biografia “Jogo Duro – A história de João Havelange” de Ernesto Rodrigues e no filme “Conversas com JH” que aborda a relação conflituosa entre biógrafo e biografado durante a processo de realização deste livro.

 

vinicio-lira

Radialista, jornalista, filósofo de boteco e observador do mundo

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