O preço de uma medalha

Ah, o espírito olímpico!

Os horários precisaram ser ajustados nesses últimos dias para acompanhar as competições dos esportes favoritos e dos nem tanto, das modalidades badaladas e das desconhecidas. No trabalho, na tvzinha do celular; antes de dormir, encerrando os estudos um pouco antes do horário normal; nos finais de semana, quase que inteiramente dedicados aos jogos.

Último dia dos jogos Olímpicos. Começaremos os Paraolímpicos (me pergunto quantas pessoas acompanharão com tanto afinco). Que tal fazer um balanço dessa nossa experiência tupiniquim de sede olímpica?

Foram muitas emoções, com toda a certeza! Com uma pitada especial (pro meu gosto particularmente) das narrações épicas de Rômulo Mendonça nos jogos de vôlei na ESPN Brasil.

Mas também foram muitas as reflexões sobre os acontecimentos, os comportamentos e os comentários. Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a voracidade da torcida brasileira por medalha, pura e simplesmente, e o que isso significa. E não por qualquer medalha, mas a de Ouro. E não uma ou outra, mas uma e outra e mais outra e outras mais, para entrar na disputa do quadro de medalhas, com o objetivo de atingir o top 10 – é o mínimo que uma sede que se preze deve fazer!

Mas quanto vale uma medalha? Para nós, torcedores ocasionais? Para a classe jornalística, que faz questão de anunciar Fulano de Tal como “a nossa esperança de medalha”? Quanto vale para os atletas? E para as atletas que, além de toda a pressão, precisam ainda encarar comentários misóginos a seu respeito?

É muito simbólica a menção da expectativa da medalha no anúncio de um jogo pelos comentaristas esportivos, quando se poderia explicitar a expectativa de um bom desempenho, de um bom jogo, de uma boa apresentação para coroar toda a dedicação da nossa classe de atletas. A verdade é que ninguém está muito preocupado com o desempenho em si mesmo. O que se quer mesmo é a medalha brilhando no peito, ao som de um hino nacional que pouca gente entende a letra (distante do povo). E não é qualquer medalha né? Queremos o ouro! A prata ou o bronze não são tão saborosas assim. Não temos a dimensão do que elas significam. Gente, o que é ser a segunda ou terceira melhor atleta do MUNDO? Você é a segunda ou terceira melhor profissional do mundo na sua área de atuação, cara pálida?

A verdade verdadeira, nua, crua e dura, duríssima, é que nós não sabemos muito bem apreciar o esporte, nós aprendemos a nossa vida inteira a consumi-lo, e isso é muito significativo. Nós não estamos preocupados com o caminho percorrido por esses heróis e heroínas nacionais, ficamos de olho apenas no pódio. Não estranhamos o fato de nossas escolas, e instituições de ensino de um modo geral, não exigirem mais a prática de esporte com tanta veemência, como outrora faziam. No entanto, exigimos muito de nossos e nossas atletas. E nos frustramos a cada conquista perdida, como se uma coisa não tivesse qualquer relação com outra, quando só tem. Não nos perguntamos quais condições foram dadas para que cada esportista ali estivesse. Só nos atentamos para a vida desportiva de um modo mais amplo, que é bem mais do que futebol milionário “duzômi”, de 04 em 04 anos, quando ficamos de braços abertos, não para apoiar a participação dos nossos, mas para arrecadar a mais-valia-olímpica em formato de medalha e apresentá-la ao mundo como obra do nosso mundinho do faz de conta.

Estamos, na realidade, num período bestial de aparências. Estas que valem mais que o conteúdo dos momentos, das vitórias, das conquistas. O que importa é parecer bom e aparecer bem na foto.

Isso é a consequência da visão de mundo estreita, quadrada e unicolor que nos é imposta a todo instante; da visão que valoriza o ter em detrimento do ser e que, assim, vê o esporte como uma questão de mero inve$timento, de cu$to-benefício, e não como um fator propulsor da cidadania, como um elemento essencial à formação humana, comprometido com certos valores capazes de revolucionar mentes e agires e de possibilitar outros caminhos, outra possibilidades, outros processos de sociabilidade. Afinal, esporte é muito mais que a prática de exercícios ou de desfrute de momentos de lazer ou de mera distração. O esporte é capaz de engrandecer, não só do ponto de vista individual, mas, e principalmente, de forma coletiva, com um potencial emancipador absurdo.

Mas por onde anda esse espírito olímpico?

Nas nossas vaias às equipes que disputam com a nossa? Na torcida pelo erro do adversário para que, no erro do outro, sejamos maiores, melhores? Nas perguntas capciosas e constrangedoras dos jornalecos de plantão? Na forma de produzir informação sensacionalista? Na forma infantilizada com que nossas atletas são tratadas?

É… o caminho de atletas brasileir@s é árduo. Sem estímulos, sem apoio, sem muita solidariedade quando ninguém está olhando (que é quando mais se necessita dela), mas cheio de exigências. Exigências da torcida. Exigência dos patrocinadores. Exigências da TV. Exigências del@s mesm@s. São anos de dedicação, de treino, de concentração, de detalhes, de superação dos limites do próprio corpo para, na hora H, ouvir um “como você se sentiu quando caiu/perdeu?”.

“Pô cara, por que você não pergunta como eu me senti na trave no lugar de perguntar da minha queda no solo?” Daniele Hypólito expõe o interesse prioritário desse tipo de jornalismo, que não é apenas comum, mas compõe a cartilha do “bom repórter” da mídia hegemônica no Brasil.

Tudo faz parte do grande circo.

“Nós realmente vamos debater isso?” responde o nadador russo, claramente incomodado, às insistentes indagações da jornalista sobre o escândalo dos dopings da delegação russa.

Qual é a contribuição desse tipo de intervenção ao espírito de confraternização e de valorização dos jogos?

Por óbvio, não se está aqui dizendo que toda a classe jornalística age dessa forma. Mas a hegemônica, a sensacionalista, que é justamente aquela que alcança toda casa brasileira e que forma opiniões, totalmente despojadas dos ideais esportistas, esquece que o importante mesmo é competir [e não necessariamente ganhar].

Quanto às vaias, talvez elas representem o momento histórico pelo qual estamos passando no Brasil e no mundo: de exposição desenfreada e sem pudores da cultura do ódio, do desrespeito e da intolerância.

Ilustração: Duke Chargista
Ilustração: Duke Chargista

Enquanto nós não percebermos que valorizar o esporte é valorizar a nossa formação humana e possibilitar melhores dias para nossas crianças e jovens, adotando uma política de Estado permanente nesse sentido, seguiremos para cada vez mais longe dos valores que fingimos adotar e mais distante do real espírito olímpico.

Mas, ao final a ao cabo, o importante mesmo foi garantido, não é verdade? A medalhinha de ouro está no peito dos nossos jogadores de futebol. Continuaremos sendo o país do futebol e só. Esqueceremos, inclusive, toda a nossa crise futebolística, o 7×1 e os processos mercadológicos encravados nas entranhas desse belo esporte. Que retumbem os rojões!

No mais, todo o meu respeito e profunda admiração a tod@s @s desportistas brasileir@s, que enfrentam todas essas adversidades sem deixar a peteca cair. O Brasil não tem merecido suas tão suadas e batalhadas medalhas.

Um beijo de ouro do coração de tod@s vocês

luana-dorziat

Luana é formada em ciências jurídicas e Sociais e trabalha na Defensoria Pública da União, onde pretende criar suas raízes. Entre um estudo e outro, acompanha o Pandora Livre como forma de não esquecer pra quê tanto estuda.

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1 comentário

  1. Porque o Brasil não tem merecido suas medalhas? Discordo totalmente…Você falou da exposição desenfreada e sem pudores da cultura do ódio, do desrespeito e da intolerância e eu concordo que estamos passando por esse momento mas não é por isso que o Brasil não mereça suas medalhas afinal somos todos brasileiros os que estão propagando o ódio e os que tentamos refreá-lo o máximo que podemos..Acho que merecemos cada medalha e fiquei feliz com cada uma inclusive com a do futebol masculino e inclusive com os quartos, quintos …lugares. Nunca vou deixar de torcer pelo meu pais não importa a crise e os valores que estejam sendo disseminados entre a “maioria” da população..

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