O feminismo não se esgota no feminismo

Inserir as mulheres no espaço público da política e do trabalho, de forma igualitária, é uma das grandes pautas do feminismo. Nunca podemos esquecer disso. E eu ressalto essa questão por quê? Explanarei.

É comum em certos grupos políticos e partidos, por questão de organização, separar as pessoas que os compõem em setores de ação. Dentre eles, pode-se separar grupos que lidarão com temas como a questão urbana, a questão agrária, a educação, a cultura, a questão racial, dentre outros. Nesses espaços, nos quais se inserem as pessoas que mais têm afinidade com o tema proposto, também tem se encontrado o setor que atentará à questão das mulheres e do feminismo. E eu vejo um problema acontecendo neste setor aqui e explico o motivo: uma quantidade muito relevante das mulheres, às vezes a maioria, têm se inserido apenas nesses grupos e deixado o protagonismo de todas as outras áreas para os homens.

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Foto: José Cruz (Agência Brasil).

Logicamente que isso não é um problema geral, mas é preocupante. O espaço de mulheres, claro, tem de discutir os problemas que nos dizem respeito, tais como a violência de gênero, mas também deve ser um espaço de auto-organização. Ele deveria preparar as mulheres para também liderarem questões que dizem respeito à macropolítica e que muitas vezes nos atinge de maneira mais cabal. Como espaço de organização das mulheres ele não pode se esgotar em si mesmo.

Essa herança tem muito a ver com o feminismo estadunidense, que demoniza os homens e rejeita os espaços mistos, porque supostamente aqueles nunca poderiam conviver com as mulheres sem exercer algum tipo de opressão. Portanto, não haveria conciliação. Só que essa estratégia não me parece inteligente. Além de nos isolar politicamente dos mais diversos temas, é um tanto naturalizadora de papéis sociais (homem=opressor; mulher=oprimida) e tenta transpor a dicotomia das classes sociais para as relações de gênero, analogia que não tem correspondência. Nesse caso, diferentemente das classes sociais e do mundo dividido em burgueses e proletários – no qual, de fato pode existir uma mudança do estado das coisas, como a superação da propriedade privada dos meios de produção e a supressão da burguesia -, sempre vão existir homens e mulheres (em termos de biologia) e a gente precisa aprender a lidar com isso.

Na minha opinião, a gente não pode deixar de disputar os espaços e também pautar e liderar questões que concernem ao mundo da economia, do trabalho, das questões agrária e urbana, da cultura, enfim. O feminismo não pode se esgotar em si, mas deve perpassar todas as discussões, fazendo parte transversalmente de todas. Usemos nossos espaços próprios também para preparar as mulheres para isso. Fica a reflexão!

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mariana-nobrega

Mariana é doutoranda em ciências criminais e mestra em ciências jurídicas. Pesquisa sobre direitos humanos, teorias feministas e criminologia. Também é servidora pública e mais uma advogada de araque neste país de direitoloides.

Politicário

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1 comentário

  1. Na Europa do seculo XIX, as revolucoes burguesas conseguem instituir a igualdade formal dos homens no nivel das leis e da politica. Entretanto, esse direito nao se estende as mulheres, ainda que houvessem participado das lutas por sua conquista.

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