Eu ainda estou aqui

A memória não é apenas uma pedra com hieróglifos entalhados, uma história contada. Memória lembra dunas de areia, grãos que se movem, transferem-se de uma parte para outra, ganham formas diferentes, levados pelo vento. Um fato hoje pode ser relido de outra forma amanhã. Memória é viva. Um detalhe de algo vivido pode ser lembrado anos depois, ganhar uma relevância que antes não tinha, e deixar em segundo plano aquilo que não era então mais representativo. Pensamos hoje com a ajuda de uma parcela pequena do nosso passado. (PAIVA, 2015, p. 117)

Na obra Ainda estou aqui o escritor Marcelo Rubens Paiva (autor de Feliz ano velho) envolve-nos em delicados e emaranhados fios de memória ao contar em primeira pessoa a história de sua mãe, Eunice Paiva – advogada, defensora dos direitos indígenas, da luta pela anistia e dos desaparecidos políticos, mãe de cinco filhos, viúva, atualmente com Alzheimer.

Múltipla, forte, prática. Estas são algumas das imagens construídas pelo autor sobre ela, mulher que passamos a admirar a cada página do livro e cuja fibra nos é apresentada logo no começo da obra, ao comentar a leitura de uma matéria do amigo Antonio Callado sobre um encontro com ela dias depois de sua soltura (Eunice passou doze dias presa no mesmo local onde seu marido foi torturado e assassinado), em que lembra de si mesma como bronzeada, magérrima e linda, ou como concluirá o próprio Marcelo: uma mulher que a ditadura não conseguiu quebrar por dentro.

Falar sobre sua mãe, todavia, é também refletir a história de sua família e, em especial, de seu pai, o deputado Rubens Paiva, desaparecido político, vítima da ditadura militar no Brasil, cujo corpo nunca foi encontrado e que – nas palavras do próprio Marcelo – morreu sob tortura em 1971 e por decreto em 1996 (mas cuja verdadeira história só vem à tona recentemente, após a instauração da Comissão da verdade). As ironias da vida costuram o fio da obra: justo no momento em que a família Rubens Paiva consegue importantes passos pelo seu direito à memória (o reconhecimento pelo Estado brasileiro do que de fato ocorrera com seu pai no fatídico ano de seu desaparecimento nos porões da ditadura militar), sua mãe, incansável ativista da luta contra a ditadura, passa a ter suas memórias cada vez mais atacadas pelo Alzheimer.

O livro, assim como a memória, é fragmentado. O próprio autor, que tinha apenas 11 anos quando seu pai desapareceu, dirá que as “memórias se embaralham” – há diversas memórias individuais que se mesclam na tentativa de construção de uma memória familiar e também nacional, pois a obra, para além de nos apresentar fragmentos da história de Eunice, Rubens e Marcelo Paiva, reflete uma parte significativa da história brasileira, que ainda precisa ser melhor conhecida.

A primeira imagem de Marcelo Rubens Paiva e família, após a prisão do pai, em 1971. (Foto: Eduardo Simões/Acervo da Família)

Contar seu passado, leva-o a fazer considerações sobre o presente, a refletir sobre o Alzheimer, a ditadura militar no Brasil, sua mãe, as questões da mulher, as recordações do pai, a busca por respostas diante de seu desaparecimento, suas irmãs, ele mesmo, e seu filho. Em seu relato sensível, o autor nos traz a dor de algumas de suas descobertas, como o fato de que seu pai fora duramente torturado ao som da canção “Jesus Cristo” de Roberto Carlos, e morreu repetindo o próprio nome “Rubens Breyrodt Paiva, Rubens Breyrodt Paiva”.

Ainda estou aqui trata da memória e sua imbricada construção do passado e do presente, pois “memória é viva”. O Alzheimer, como um caminho inexorável do esquecimento, é rebatido pela mãe com a afirmação “ainda estou aqui”, uma forma de resistir diante da insistência em falar sobre ela no passado, uma espécie de morte antecipada. Tal observação se aproxima na obra com o sepultamento sem corpo dos desaparecidos políticos, que faz com que estes estejam sem estar,uma morte cruelmente adiada – e que novamente se relaciona com o título, pois como nos dirá o próprio autor: a morte de seu pai parece não ter fim. E ele mesmo, Marcelo, ao se posicionar através da obra como narrador vivo da história de sua família, reunindo relatos, memórias pessoais, pesquisas, impressões, documentos, também se coloca como sujeito ativo da construção dessa memória.

Ainda estou aqui é uma provocação. A frase dita pela mãe e que dá título ao livro, mais que uma mera observação é uma reivindicação de espaço, e a obra faz isso: garante seu espaço na literatura, no debate político, do direito e na história do país. Como certa vez afirmou Milan Kundera “a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”. Assim, se memória é resistência, narrar é também um ato político. Ainda estou aqui é também um convite para que os que ainda estão tomem consciência da importância de refletir sobre a nossa história enquanto sujeitos políticos e enquanto povo. Afinal, nós ainda estamos aqui ou não estamos?

Família completa, com Rubens Paiva e a avó Cici (Foto: Acervo da família).

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gilmara-medeiros

Gilmara é professora do curso de direito na Universidade Federal Rural do Semiárido e doutoranda em Direito Constitucional pela Universidade de Brasília. Desenvolve pesquisas em teoria e história dos direitos humanos.

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