O casamento da deputada, os limites da ação política e o interesse público

Fonte: Canal Youtube – Notícias Política BR

O protesto dos paranaenses contra o casamento ostentação da deputada gerou um bom debate sobre os limites da ação política. Para algumas pessoas, mesmo quando situadas à esquerda do espectro ideológico, os manifestantes teriam ultrapassado a linha que divisa o espaço público e o privado. Teriam devassado um momento protegido pelo invólucro da privacidade, errado a mão na intensidade dos protestos contra políticos. É que não seria adequado o emprego de palavras de ordem, faixas anti-ostentação e arremesso de ovos, naquele espaço e naquele tempo, pois a celebração do enlace em nada interessava àqueles que não tinham sido convidados para a festa nobre.

A questão, no entanto, é saber a quantas anda a diferença entre o interesse público e o privado nos dias de hoje. Uma olhada de relance para a dona da festa nos dá alguma pista: trata-se de uma deputada, filha de um ministro e de uma vice-governadora, e também neta, irmã e sobrinha de políticos. Já aqui cabe perguntar: as relações travadas dentro de famílias que se perpetuam no poder, que transferem capital político pelo sangue, que transmitem eleitorados como herança, são mesmo infensas a qualquer interesse público?

E mais: ainda podemos falar em divisas intransponíveis entre público e privado diante das recentes inovações legislativas, como a que congela gastos públicos por décadas e condena os serviços públicos ao sucateamento? Ou a que restringe o acesso a direitos previdenciários e assistenciais, inviabilizando a seguridade social pública? Ou a que lança os trabalhadores à vala da desproteção e lhes tira garantias na sua desigual relação com os patrões? Ou a que fulmina o direito de comunidades tradicionais ao seu território? Ou, ainda, diante da declaração do pai da noiva, de que seria preciso pensar em planos de saúde ‘acessíveis’, o que significa ‘planos de saúde que minimizam a cobertura mínima’? Não seriam todos esses casos exemplo de que os mandatários do povo estariam mais bem preocupados com interesses privados do que com atingir objetivos compartilhados pela coletividade?

Além disso, o ouro lado da moeda – ou seja, o fim do interesse público e a hipertrofia do interesse por questões privadas – também deve ser alvo de reflexão crítica. Sobre isso, José Carlos Moreira da Silva nos adverte que o processo de solapamento do interesse público pela crescente individualização leva à lenta e progressiva corrosão da cidadania. Fundamentando-se nas ideias de Bauman, o autor aponta que “O público é colonizado pelo privado. O interesse público passa a ser a curiosidade sobre as vidas privadas das pessoas públicas e a exposição pública das questões privadas. O método que restou de construção da comunidade foi compartilhar de experiências íntimas. Tal processo leva à formação de comunidades frágeis e fugidias. Há um isolamento e confinação do ego.”

É por essas e outras que, mesmo sem simpatizar com a ideia dos omeletes de renda francesa, não me convenço do cartesianismo que rejeita o protesto contra os nubentes, sua oligarquia e os seus convivas. Se os casamentos em geral invocam o amor, este em particular deveria provocar a reflexão sobre o ocaso da política e do amor mundi, aquele tipo de amor declamado por Maquiavel quando dizia “amo mais Florença do que a minha vida ou a salvação de minha alma”. Podemos aprender com Hannah Arendt: “A questão, tal como Maquiavel a viu, não era se se amava mais a Deus do que o mundo, mas se seria capaz de amar mais o mundo do que a si próprio. E, de fato, essa decisão sempre foi a decisão crucial para todos os que dedicaram sua vida à política.”

diana-andrade

Diana é defensora pública e mestre em desenvolvimento regional. Escrever no Pandora Livre é parte do seu plano de se tornar uma burocrata descolada.

Destaque, Politicário

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